Por Douglas Ceconello – A queda da Seleção Brasileira teve contornos de crueldade. Após desperdiçar chances claras, o time de Carlo Ancelotti foi castigado pela perícia artilheira de Erling Haaland. Mas a derrota reflete exatamente a índole de um time que se acostumou a fugir da responsabilidade. Um time que desde a véspera da Copa não se mostrou à altura de ambicionar de verdade a conquista do Hexa.
É doloroso constatar isso, mas hoje o exemplo mais gritante foi Vinicius Jr, de longe o melhor jogador da Seleção nos cinco jogos disputados. Porém, quando precisou subir um degrau em termos de responsabilidade para se tornar um jogador determinante em Copa do Mundo, passou a bola para Bruno Guimarães cobrar (e errar) o pênalti que certamente mudaria o andamento do jogo.
Mesmo que a decisão de vestiário fosse esta, como Ancelotti esclareceu em entrevista após o jogo, era de se esperar que o maior protagonista do time se apresentasse em um momento tão crucial. Ele era o cara e a cara desse time na Copa.
Vini Jr. e Bruno Guimarães não devem carregar este fardo sozinho, obviamente. Nem Endrick, cuja escalação era pedida por metade do país (inclusive por mim) e desperdiçou uma chance inacreditável (após passe magistral justamente de Vini Jr.), ou mesmo Gabriel Magalhães, que perdeu o duelo individual com Haaland, seu velho conhecido dos perrengues em campos ingleses.
É um peso que deve ser compartilhado por todos. No jogo de hoje, era angustiante a passividade da Seleção diante de uma Noruega que usava a posse de bola para se defender. O Brasil assumia, assim, a sua falta de propensão ao protagonismo — passou a tarde esperando que o time nórdico errasse para que pudesse continuar sonhando. E nesse ponto também Ancelotti, apesar do pouco tempo no comando, tem sua parcela de contribuição — suas alterações no decorrer do segundo tempo foram catastróficas.
Não é de hoje essa tendência de abdicar do compromisso. Esse comportamento ficou evidente nas semanas anteriores à convocação final, quando líderes da Seleção pediam explicitamente a convocação de Neymar. Problema maior do que Ancelotti ter escolhido levá-lo, mesmo sem as condições físicas ideias, é a impressão de que esse clamor interno refletia um time que não se sentia à altura da missão que tinha pela frente. Precisava, no fim das contas, de um escudo.
Tudo isso é escrito após o ciclo caótico que todos testemunhamos, mas colocar todos os erros e omissões na conta desse cenário prévio é muito confortável. Hoje, a Seleção fracassou em termos coletivos e individuais, do campo ao banco. E assim sacramenta o jejum que vai chegar a 28 anos sem títulos — com a inédita marca de, no mínimo, seis edições de Copa sem levantar a taça. E a impressão que fica, dolorida e amarga, é que o futebol brasileiro precisa ser refundado. (Foto: Mike Segar/Reuters)
Douglas Ceconello – Jornalista, um dos fundadores do Impedimento.org, dedicado ao futebol sul-americano


