Existem vozes que continuam ressoando mesmo na presença do silêncio. Esse é o caso de José Carlos Martins, conhecido como Zé Martins. Ele foi cantor, compositor, artista plástico, educador popular, professor e defensor da cultura. Zé faleceu na manhã deste sábado (27), em Novo Hamburgo (RS), aos 64 anos, em decorrência de uma parada cardíaca em seu ateliê, o lugar que ele mais apreciava e onde vinha criando suas obras nos últimos anos.
Zé deixa atrás de si dois filhos, Tobias Martins e Gabrielle Martins. O sepultamento começará às 21h deste sábado (27), na Câmara Municipal de São Leopoldo (RS), onde também ocorrerá a cerimônia de homenagem, às 11h do domingo (28).
A partida é um imenso golpe para a cultura popular do Brasil e da América Latina, porém sua criação permanecerá presente nas músicas, nas artes plásticas, nas esculturas, nas práticas educativas e na própria história do Brasil de Fato RS, que teve sua canção-tema escrita por ele.
Nascido em Porto Alegre em 27 de setembro de 1961, Zé optou por Lomba Grande, em Novo Hamburgo, como seu lar, onde desenvolveu sua identidade e suas raízes. Possui licenciatura em Educação Artística, graduação em Artes Plásticas e especialização em Educação, Estética e Arte pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Sua trajetória é marcada pela intersecção entre conhecimento acadêmico, educação comunitária e expressão artística. Além disso, ele fazia parte do Comitê Gestor do Ponto de Cultura Cantalomba, localizado na Lomba Grande.
Grupo Unamérica
Juntamente com Dão Real, Protásio Prates, já falecido, e Luis César de Oliveira, Zé Martins foi um dos criadores e fundadores do Grupo Unamérica. Com início de suas atividades no começo da década de 1980, ainda em meio à repressão e à violência da ditadura militar, o Grupo Unamérica surgiu da inquietude de jovens artistas vinculados ao movimento estudantil que viam a cultura como uma ferramenta de mudança social. As ações do grupo se mantêm até os dias atuais, representando um projeto artístico inovador que desafiou as limitações impostas por nacionalismos restritos, promovendo a afirmação da identidade latino-americana.
Influenciado pela Nueva Canción Latinoamericana e por artistas como Mercedes Sosa, Violeta Parra, Víctor Jara, Daniel Viglietti, Alfredo Zitarrosa e Atahualpa Yupanqui, o Unamérica percorreu por mais de quarenta anos universidades, sindicatos, escolas, movimentos populares, teatros e festivais, utilizando a música como um meio de unir os povos do continente. O grupo apresentou nos palcos não apenas melodias, mas também uma perspectiva pautada na solidariedade, na democracia, na justiça social e na crença de que as barreiras políticas nunca seriam superiores aos laços culturais que conectam as nações da América Latina.
Atuação política
A defesa cultural também se manifestou na administração pública. De 2005 a 2008, ocupou o cargo de secretário municipal de Cultura em São Leopoldo (RS), onde se dedicou a promover políticas culturais mais robustas, valorizar os artistas e ampliar o acesso da comunidade à produção artística. Posteriormente, entre 2013 e 2016, exerceu a função de coordenador de Cultura na Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), colaborando para a elaboração e o fortalecimento das políticas públicas de cultura nas cidades do estado.
Em todas essas áreas — como compositor, artista visual, professor, administrador público e ativista — Zé Martins sempre sustentou a mesma crença: a cultura não deve ser vista como um privilégio, mas sim como um direito; não é um produto, mas um bem comum; não se limita ao entretenimento, mas é uma parte fundamental da democracia e da cidadania. (Foto: Katia Marko)
Por Opinião em Pauta com informações do Brasil de Fato)



