Brasil: paraíso da agiotagem bancária

Henrique Acker –   Num país em que cerca de 70% da população trabalhadora recebe até dois salários mínimos, os piores dias do mês são os do vencimento das parcelas das dívidas do cartão de crédito e do cheque especial. Entre os endividados, ao contrário do que se imagina, também estão 50% dos funcionários públicos.

Na verdade, grande parte dos brasileiros usa o cartão de crédito como uma espécie de “complemento salarial”, rolando dívidas que vão se tornando impagáveis com o acúmulo mensal de juros. Segundo pesquisa DataFolha publicada em 18 de abril, 67% dos brasileiros estão endividados e 21% em atraso com o pagamento das dívidas.

Para reduzir o estrago que a inadimplência provoca nas vidas das pessoas, o governo Lula criou o “Desenrola Brasil”, que permite a renegociação de dívidas contraídas entre 2019 e 2022 até o valor de R$ 20 mil, para pessoas com renda mensal de até dois salários-mínimos. Mas isso não é suficiente para aliviar a maior parte da população endividada no país.

 

País dos juros extratosféricos

Mas o que a maioria ignora é que, além de suas dívidas pessoais, os brasileiros pagam com seus impostos todos os dias R$ 5 bilhões só de juros, encargos e amortizações da dívida pública do país. Enquanto o vilão do crédito pessoal é o crédito rotativo, no caso da dívida brasileira o problema é a aplicação de juros sobre juros, o que torna qualquer dívida impagável.

Nos dois casos, os maiores beneficiários são os grandes bancos e fundos de investimentos, detentores de pouco mais da metade dos títulos da dívida interna do país e de juros pagos pela massa de correntistas endividados.

No caso da dívida pública federal, o endividamento total chegou a R$ 8,84 trilhões em abril de 2026. Bancos e financeiras são os principais detentores dos títulos da Dívida Pública Interna, com participação de 31,92% em janeiro/26, seguidos por Previdência (22,66%), Fundos de Investimento (21,36%) e pessoas não residentes no país (10,69%).

A grande diferença é que a dívida pública acumulada é descontada todos os anos diretamente do Orçamento da União. O que resta é a parte do orçamento que financia os investimentos públicos anuais com setores fundamentais, como educação, saúde e outros.

De acordo com a Auditoria Cidadã da Dívida (ACD), só em 2025 o pagamento da dívida pública brasileira consumiu R$ 2,135 trilhões do Orçamento Federal, ou seja, 42,2%, a maior fatia dos gastos do governo. Isso tem impacto direto no pouco investimento nas áreas sociais.

Em função do estrago que o pagamento dos juros, encargos e amortizações provoca ao país, comprometendo investimentos sociais, a Auditoria Cidadã da Dívida lançou uma campanha pela limitação da taxa de juros a 12% ao ano (ou o dobro da taxa Selic, o que for menor). A proposta foi oficializada e tornou-se o Projeto de Lei 104/2022.

 

Brasil, EUA e Portugal

Enquanto o Banco Central do Brasil estipula uma taxa oficial de juros de 14,75% ao ano (primeiro trimestre de 2026), os bancos comerciais praticam cobranças muito superiores para seus correntistas, com média no empréstimo pessoal em torno de 160% ao ano.

A taxa mensal de juros para empréstimo pessoal no Brasil chega a 8,44% ao mês (abril/2026) e 7,96% no cheque especial. No cartão de crédito rotativo as taxas de juros mensais variam de 8% a 15%. Já os juros do crédito consignado (descontado diretamente na folha de pagamento) variam de 1,6% a 2,1% ao mês.

Para se ter uma ideia do absurdo praticado pelos bancos no Brasil – com a anuência do Banco Central – em Portugal, onde residem cerca de 400 mil brasileiros, a taxa de juros cobrada sobre empréstimos pessoais varia de 8,56% a 15,6% ao ano. Já a taxa de juros mensal cobrada em Portugal varia de 1% a 2% (em caso de multa).

Nos EUA, que concentra a maior colônia brasileira fora do país – cerca de dois milhões – a taxa de juros anual gira em torno de 12,27% ao ano. A taxa aproximada de juros ao consumidor varia de 1% a 1,5% ao mês.

A consequência dessa verdadeira corrida maluca é que 65% dos brasileiros possuem mais de um cartão de crédito. O levantamento mais recente da Serasa Experian indica que 76 milhões de brasileiros estão endividados, o que representa quase 50% da população adulta do país.

Já são 230 milhões de cartões de crédito nas mãos de clientes bancários. Ou seja, grande parte dos endividados paga a dívida contraída em um cartão com nova dívida em outro cartão.

 

Crédito rotativo

Segundo a pesquisa DataFolha, o modelo de crédito aplicado no Brasil tem um impacto direto no aumento da inadimplência no país. Em março de 2025, o Brasil registrou 75,7 milhões de pessoas inadimplentes, o que representa quase metade da população adulta.

O uso do crédito rotativo — modalidade acionada quando se paga apenas o valor mínimo da fatura do cartão — também chama atenção. Segundo a pesquisa, 27% dos brasileiros utilizam essa linha de crédito com alguma frequência, sendo 5% de forma recorrente.

Em 2023, o governo Lula determinou o limite de 100% do valor original da dívida, a chamada Regra de Limite Anual, que passou a vigorar em 2024. Considerado o crédito mais caro do mercado, o rotativo do cartão tem juros médios de 14,9% ao mês, de acordo com o Banco Central.

Os que recorreram a empréstimos com amigos e familiares, declaram que a situação é ainda mais crítica: 41% afirmam estar devendo. Entre os principais tipos de dívida em atraso, o cartão de crédito parcelado lidera, citado por 29% dos entrevistados, seguido por empréstimos bancários (26%) e carnês de lojas (25%).

O levantamento aponta que 28% dos brasileiros estão com contas de consumo e serviços em atraso. Entre os principais débitos aparecem telefone celular e internet (12%), tributos como IPTU, IPVA e carnê-leão (12%), além de contas de luz (11%) e água (9%).

 

Orçamento comprometido

O Datafolha também indica que 27% vivem em situação considerada “apertada” e 18% em condição “severa”, totalizando 45% dos brasileiros sob forte pressão no orçamento. Outros 36% estão em situação moderada. Apenas 19% se classificam como em condição leve ou sem restrições.

A pesquisa revela o peso do crédito no dia a dia: 57% dos brasileiros usam cartão de crédito, sendo que 13% parcelam compras de supermercado com frequência e 4% fazem o mesmo com contas básicas, como água e luz. Além disso, 5% afirmam pagar a fatura de um cartão com o limite de outro com frequência, enquanto 10% fazem isso ocasionalmente.

A percepção de que o crédito facilita o endividamento também é alta: 68% concordam que ofertas via celular ou internet incentivam gastos por impulso, e 51% dizem ser difícil fechar as contas do mês sem usar cartão de crédito.

A pesquisa Datafolha ouviu 2.002 pessoas com 16 anos ou mais em 117 municípios brasileiros nos dias 8 e 9 de abril. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. (Foto: Reprodução)

 

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de Auditoria Cidadã da Dívida (ACD), O Globo, Ministério da Fazenda, Serasa, Blog Pagbank e Dowbor.org.

 

 

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