Henrique Acker – Em ano de eleição presidencial no Brasil, o clima costuma ficar pesado. Nas eleições deste ano não estão em jogo apenas questões internas, mas todo o tabuleiro da geopolítica na América Latina e no Mundo.
Será o palco ideal para a confluência de interesses entre os planos de Donald Trump, o resgate do bolsonarismo e a velha chantagem política do Centrão. Trump terá a oportunidade de influenciar o processo e já movimenta seus pauzinhos.
Derrotar ou enfraquecer Lula pode ser a pá de cal no BRICS, que fornece cada vez mais condições para o avanço dos planos de expansão econômica da China no cenário internacional.
Atores e seus objetivos
O PT e os partidos de esquerda sabem que é preciso muito mais do que a reeleição de Lula, uma centena de deputados e uma dúzia de senadores para tocar um governo. Se se acovardarem, correm o risco de uma vitória frágil ou até de uma derrota.
Antonio Rueda (União Brasil) e Ciro Nogueira (Progressistas), principais líderes do Centrão, pretendem conquistar uma maioria sólida no Senado, já que contam com maioria na Câmara. O objetivo é manter a política de chantagem sobre o Executivo para obter benesses, seja qual for o governo.
O bolsonarismo deve se apegar a Trump e à tentativa de retomada da hegemonia de direita na América Latina. Precisa manter os governos de SP, Rio e MG e, se possível, fazer do PL o partido mais votado e com a maior bancada de deputados na Câmara Federal.
Papel da mídia empresarial
Os escândalos da roubalheira contra aposentados do INSS, a operação que provou a ligação de bancos e fintechs à lavagem de dinheiro do PCC e do CV e o caso do Banco Master expuseram os negócios ilícitos de uma burguesia diretamente vinculada ao bolsonarismo e ao Centrão, que opera em forma de máfias.
Itaú, Mercado Vivo, Claro, Vivo, Ambev, Betano, Fiat e GM são os maiores anunciantes de O Globo, demais mídias das Organizações Globo. Bradesco, Visa, Bubank, Mercado Pago, Casas Bahia, Shopee, Shell, Volks estão entre os principais anunciantes do Grupo Folha.
Por isso, a Operação Lava-Jato 2 já começou. Os lavajatistas de hoje não têm como afastar Lula da eleição. Por isso, o objetivo é desmoralizar o STF e os principais ministros da corte suprema do Judiciário, que se tornaram obstáculos para o vai da valsa do sistema financeiro e as negociatas de emendas e obras fantasmas.
O mito “Lulinha”
Um dos alvos prediletos da extrema-direita em ano de eleição é Fábio da Silva, um dos filhos de Lula. Ele já foi acusado de tudo e agora seu sigilo bancário foi novamente quebrado para investigar possível ligação com a máfia da roubalheira dos aposentados do INSS.
Sem qualquer informação consistente, O Globo, Folha SP, Estadão e outros meios de comunicação passaram a explorar a movimentação financeira da única conta bancária de Fábio. Atacar o “lulinha” é uma forma eficaz de atingir e desmoralizar Lula.
A revista Veja anunciou a negociação de um grande empresário brasileiro para uma “delação premiada” com o Departamento de Justiça dos EUA contra um ministro do governo Lula.
Ataques ao STF
As Organizações Globo passaram a alimentar o sonho bolsonarista de desmoralizar o STF, sobretudo o ministro Alexandre de Moraes. Num desserviço ao jornalismo, Malu Gaspar e Lauro Jardim se esmeram em criar versões com base em especulações.
Até agora, o tal contrato entre a mulher de Moraes e o Banco Master não apareceu. Num vazamento seletivo promovido pelas fontes de Malu Gaspar, O Globo publica o que seria uma conversa entre Alexandre Moraes e Vorcaro, só que sem as falas do magistrado.
O estilo usado até aqui se assemelha a uma novela: todo dia tem um novo capítulo, alimentado por manchetes bombásticas e um clima que mistura mistério, romance e aventura na Globonews e no Jornal Nacional. Coisa que a Globo sabe fazer muito bem.
Num malabarismo sem fim, os apresentadores globais explicam que as palavras de Moraes teriam sido apagadas por um sistema do Whatsapp. Mas que as palavras de Vorcaro teriam sido de notas que ele escreveu e guardou em seu celular. A Rede Bandeirantes segue a mesma toada.
Alexandre de Moraes contra-ataca e insiste, através de nota da Assessoria de Imprensa do STF, que jamais teve as tais conversas a ele atribuídas com Vorcaro, e publicadas pelas Organizações Globo. O ministro refuta também a versão de que teria frequentado a casa de Vorcaro na Bahia.
A Polícia Federal vem em seguida com uma nota, esclarecendo que não compete a ela “editar conversas, selecionar ou manipular dados extraídos de equipamentos apreendidos, sob pena, inclusive, de violação ao direito ao contraditório e à ampla defesa, constitucionalmente assegurados”. E pede a Mendonça a abertura de investigação sobre a divulgação indevida de informações sigilosas.
Bois na linha
Em sua primeira medida ao assumir as investigações sobre o caso do Banco Master no STF, o bolsonarista André Mendonça ordena que as informações devem ficar restritas a determinados policiais federais, a banda lavajatista da PF.
Estranhamente, o assessor de Vorcaro se suicida dentro das dependências da PF de Minas Gerais. O “sicário” certamente sabia demais e não está mais entre os mortais para, quem sabe, negociar uma delação premiada.
Isso é só o começo do que está por vir. Mas é também revelador de como o lulismo continua levando em banho-maria os grupos de direita e extrema-direita que flertam com a mentira, a lavanderia de dinheiro, milícias, a mídia empresarial e setores golpistas da cúpula das Forças Armadas.
Essa turma vai se unir em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro. E o programa já foi anunciado pelo senador Rogério Marinho: novas reformas trabalhista e da previdência, corte de investimentos em programas sociais, arrocho salarial, alívio fiscal para as grandes empresas e um Banco Central sempre amigo dos grandes bancos privados.
Jogo duro
Um governo com um mínimo de compromisso com o país não pode continuar entregando todo ano metade da verba de publicidade da Secretaria de Comunicação – dinheiro público – para as Organizações Globo, sob a alegação de que se trata de um critério de “mercado”.
Assim como não é possível compreender que ainda exista um setor bolsonarista/lavajatista operando a pleno vapor e com influência dentro da PF.
O clima político deve ficar pesado daqui até as eleições. E caberá ao governo partir para a ofensiva, não só divulgando os avanços conquistados, mas impulsionando uma pauta de novas melhorias para os trabalhadores e o povo. A começar pelo projeto que propõe o fim da escala 6×1 e as 40 horas semanais de trabalho. (Foto: Charge de Fraga / Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista)



