Irã: crise econômica gera nova onda de manifestações.

Henrique Acker –   Em tempos de notícias falsas e propagação de boatos infundados nas redes sociais, tornou-se comum transformar conflitos numa disputa entre bem e mal, “bonzinhos” e “mauzinhos”. É o que se assiste outra vez, agora no caso do Irã, sacudido há três semanas por manifestações populares.

Com cerca de 90 milhões de habitantes, o Irã forma uma espécie de corredor de passagem entre o Oriente Médio e a Ásia, sendo banhado ao sul pelo Mar Arábico e ao norte pelo Mar Adriático (ver mapa). Daí sua posição estratégica na chamada geopolítica.

 

Origem e identidade nacional

Diferentemente dos países árabes da região, o Irã é formado pelo povo persa, que surgiu e se firmou entre os rios Tigre e Eufrates, na região conhecida como Mesopotâmia, estendendo-se ao sul aos golfos Pérsico e de Oman.

A localização do país permite ao Irã controlar o Estreito de Ormuz, importante ponto de passagem na rota de navegação para o transporte de combustíveis.

Atualmente, mais de 90% da população professa a religião xiita duodecimana. A fé islâmica foi um dos fatores que contribuiu para a formação da identidade nacional e a Revolução de 1979. Até então, o Irã era governado pela família imperial, tradicional aliada dos EUA e sustentada no poder pelo Ocidente desde o golpe militar de 1953.

Por trás do golpe orquestrado pela CIA e o MI6 (serviço secreto britânico) estava a disputa pelo petróleo. Foi uma reação das superpotências ocidentais ao governo do primeiro-ministro democraticamente eleito, Mohammad Mossadegh, que decidiu nacionalizar a indústria de petróleo iraniana, antes controlada pelos ingleses.

 

Cerco econômico

Apesar de ser um dos maiores produtores de petróleo e gás do planeta, desde a Revolução Islâmica de 1979 o Irã enfrenta sanções econômicas por parte dos EUA e dos países da Europa.

Essas medidas estrangulam a economia do país. O cerco econômico impede a comercialização do petróleo e do gás iranianos a preços competitivos, bem como os produtos da sua indústria petroquímica.

O Irã sofre restrições para acessar o sistema financeiro global e realizar transações comerciais no mercado internacional, enfrentando dificuldades na compra e venda de produtos essenciais.

O cerco econômico gera desvalorização da moeda (rial) e inflação, desemprego e empobrecimento, motivos da insatisfação social. Some-se a isso os desmandos autoritários do regime.

 

Isolamento e aliados

Controlado por uma ala mais ortodoxa religiosa e um setor moderado, que se alternam e convivem no poder, as relações sociais e políticas no Irã são ditadas pela Sharia (lei), derivada do Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos.

Num quadro de isolamento, de relações políticas e econômicas desfavoráveis, resta ao Irã apoiar e fortalecer política e militarmente seus aliados no Oriente Médio, como o Hamas (Palestina), o Hezbollah (Líbano) e os Houthi (Iemen).

Ao mesmo tempo, o regime dos aiatolás se aproximou recentemente da China e da Rússia, países com os quais mantém acordos econômicos e militares.

 

Mudança ou reformas?

Motivos para insatisfação e manifestações populares não faltam, o que pode levar a atual crise econômica e política a conduzir o país a caminhos diferentes.

O mais provável é uma nova reformulação do regime, com a adoção de medidas que aliviem a pressão econômica, defendida pelos chamados reformistas, e o afastamento dos fundamentalistas religiosos do centro do poder, dando lugar a um regime mais pragmático.

Outra hipótese é que a repressão do governo às atuais manifestações de rua leve a uma resistência cada vez maior, com a queda do regime teocrático e o surgimento de um novo regime, apoiado pelos EUA e a União Europeia. Seria decisivo o apoio de parte dos militares, o que parece difícil dada a reformulação adotada nas forças armadas.

Uma terceira possibilidade, menos provável, seria a queda do atual regime e a construção de uma alternativa democrática de poder, com relativa independência das superpotências. Para isso, seria necessário a construção de um novo bloco político, capaz de expressar os interesses dos trabalhadores e da classe média. (Foto: Reprodução)

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações da Al Jazeera, Infomoney, BBC, CNN Brasil.

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