A democracia por um fio

Henrique Acker  –   Como afirmei aqui no Opinião em Pauta semanas atrás, a frágil democracia brasileira se sustenta nos dias que vivemos em três figuras cruciais: o presidente da República e os ministros do STF Alexandre de Moraes e Flávio Dino.

Lula empresta sua credibilidade popular à defesa do regime democrático, oferecendo aos órgãos de investigação (PF) e de Justiça (MP) a autonomia necessária para realizarem seu trabalho.

Moraes dedica sua atuação a combater a impunidade dos que se julgam acima da lei, sobretudo no que diz respeito ao exercício permanente da democracia.

Dino, com seu trabalho, atinge os interesses mais mesquinhos dos poderosos, ao investigar e bloquear a destinação e a aplicação de emendas parlamentares que sangram os cofres públicos.

É sintomático que Davi Alcolumbre, Hugo Motta e a maioria dos membros do STF não tenham comparecido à cerimônia oficial que celebrou os três anos de derrota da tentativa de golpe de Estado, de 8 de janeiro de 2023.

Teriam toda razão para prestigiar o evento, visto que tanto o Poder Legislativo quanto o Judiciário foram alvos dos golpistas que depredaram as sedes dos três poderes

Infelizmente, os atuais presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal são apenas fiadores das bancadas de grupos privados e dos coronéis urbanos, que predominam no Congresso Nacional. No STF, o que ainda prevalece é um misto de show de vaidades e conservadorismo.

É preocupante a pouca audiência e a falta de manifestações populares nas principais capitais do país três anos depois da tentativa de golpe.

Apesar da prisão de uma centena de golpistas e de algumas dezenas de cabeças do 8 de janeiro – inclusive Bolsonaro e seus ministros militares, a sociedade brasileira ainda não atentou para a gravidade dos fatos que foram orquestrados pela extrema-direita neofascista em 2023.

Essa mesma extrema-direita que tentou virar a mesa da eleição nos EUA, que retornou ao poder com Trump e ameaça os povos das Américas, que pressiona os imigrantes na Europa e que volta a crescer na América Latina, propondo menos democracia, menos transparência e regimes cada vez mais repressores e violentos.

Democracia não é apenas o direito ao voto e a escolha dos governantes e parlamentares de tempos em tempos. Em países como o Brasil, em que a grande massa dos trabalhadores recebe até um salário-mínimo e vive na pobreza, o regime democrático ainda precisa avançar muito mais.

A democracia só pode prosperar e florescer se houver participação popular e transparência nas decisões que dizem respeito às maiorias, se chegar aos meios de comunicação analógicos e digitais, à gestão das empresas públicas e privadas, se tomar as escolas, os bairros, as comunidades populares e as praças.

A falência dos partidos políticos e a crise da democracia formal, esvaziada pelos interesses privados de uma ínfima minoria, trazem como resultado o crescimento da extrema-direita e suas receitas de preconceitos, exploração, tiro, porrada e bomba. Foi o que o Brasil experimentou em quatro anos de Bolsonaro.

O resultado é o que conhecemos: congelamento do salário-mínimo e das aposentadorias, 700 mil mortos na pandemia, o avanço das milícias, a apropriação de um bilhão e 300 milhões de dinheiro público pelos bancos. Sem contar o festival de sandices, que colocava o país sob tensão permanente.

Sem uma democracia alicerçada no poder popular e com um regime sustentado apenas pela atuação corajosa de alguns indivíduos, corremos o sério risco do retorno da barbárie golpista que se viu em 8 de janeiro de 2023, derrubando o pouco que resta das conquistas do povo brasileiro nas décadas que sucederam à famigerada ditadura militar de 1964-1985. (Foto: Reprodução)

 

Por Henrique Acker (jornalista e colunista)

 

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