Após mais de vinte anos de discussões, o pacto em fase de ratificação entre a UE e o Mercosul é capaz de causar uma das mais significativas transformações no comércio agrícola mundial em anos recentes.
Para o Brasil, isso significa a oportunidade de aumentar as exportações com valor agregado em um mercado mais refinado e estável em termos institucionais. Já para a União Europeia, a dificuldade reside em equilibrar interesses geopolíticos, preservação ambiental e a intensa pressão vinda de agricultores locais.
De acordo com o acadêmico Marcos Jank, do Insper Agro, a vontade da Europa em progredir com o tratado está intimamente relacionada a aspectos que vão além do comércio agrícola, conforme apurou a BBC em reportagem que Opinião em Pauta reescreve dada a importância do fato.
O portal britânico ouviu do acadêmico que a Europa está empenhada em fortalecer parcerias estratégicas em resposta a dinâmicas geopolíticas mundiais, como a aproximação entre Rússia e China e a nova postura dos Estados Unidos na América Latina.
“A União Europeia considera o Mercosul não apenas um aliado econômico, mas também um parceiro estratégico nas áreas de segurança alimentar e geopolítica“, afirmou Jank.
Importância do agronegócio brasileiro
As informações indicam que a União Europeia já desempenha um papel importante na agricultura do Brasil, mesmo na ausência do contrato em funcionamento.
Entre janeiro e novembro de 2025, as vendas de produtos agropecuários do Brasil para a União Europeia totalizaram US$ 22,89 bilhões, conforme dados do sistema Agrostat do Ministério da Agricultura. Esse montante é inferior aos US$ 27,71 bilhões alcançados no mesmo intervalo de 2024, embora corresponda a 48,5% do total das exportações do setor.
A carne de boi se destaca entre os produtos, com exportações para a União Europeia totalizando US$ 820,15 milhões de janeiro a novembro, o que representa um aumento de 83,2% em relação ao ano anterior. Apenas China e Estados Unidos superam essa quantia em termos de valor de destino.
A carne de frango teve a União Europeia como o sexto maior destino, totalizando exportações de US$ 457,99 milhões. Em relação ao café verde, a UE se destacou como o principal mercado, com vendas de US$ 6,43 bilhões nos primeiros 11 meses de 2025, o que representa um aumento de US$ 1,22 bilhão em comparação ao mesmo intervalo de 2024.
No segmento da soja, a União Europeia se posicionou como o terceiro maior mercado, acumulando cerca de US$ 6 bilhões em exportações. No setor de celulose, apesar de uma redução de 12,9% nas vendas externas, o bloco continuou a ser o segundo maior comprador, representando 21,1% do total exportado, o que gerou receitas de US$ 1,98 bilhão.
Caso o pacto seja implementado, espera-se a diminuição ou extinção de impostos sobre itens como carnes, açúcar, etanol, suco de laranja, café e celulose — ações que podem aumentar ainda mais a competitividade do Brasil no mercado europeu.
Taxas de importação
Com o objetivo de amenizar a oposição interna na União Europeia, especialmente entre os agricultores da França, Itália e Hungria, a Comissão Europeia declarou que irá diminuir as taxas de importação para alguns fertilizantes essenciais utilizados na agricultura do bloco.
A iniciativa sugere eliminar completamente as tarifas de 6,5% aplicadas à ureia e de 5,5% sobre a amônia, que são dois dos fertilizantes mais utilizados na agricultura.
Além dessa iniciativa, a União Europeia está avaliando ações que possibilitem a interrupção temporária da taxa de carbono na fronteira (CBAM) para certos produtos importados, com o objetivo de diminuir os gastos a curto prazo para os produtores agrícolas europeus.
Enquanto progressos são feitos na liberalização do comércio, a União Europeia intensifica suas medidas de proteção interna.
Foi estabelecido um “gatilho automático“ entre as partes. Caso as importações de produtos agrícolas provenientes do Mercosul aumentem mais de 8% em comparação ao ano anterior, a Comissão Europeia poderá iniciar investigações e implementar ações corretivas, como a reimposição de tarifas temporárias ou a imposição de limites de volume.
Essa taxa de 8% reflete um compromisso político intermediário entre sugestões anteriores, que variavam de 5% a 10%, e é direcionada principalmente a setores considerados delicados, como carne de boi, frango e açúcar, que possuem grande influência política na Europa.
As exigências ambientais permanecem como uma fonte de conflito, englobando pedidos para o enfrentamento do desmatamento, a rastreabilidade da produção, a adesão estrita a normas de saúde pública e o cumprimento de compromissos climáticos globais. Essas demandas aumentam os custos e favorecem os grandes produtores que já estão estruturados.
Produtores rurais europeus resistindo
Na Europa, o pacto enfrenta uma considerável resistência por parte de agricultores que se opõem veementemente à liberalização do comércio. Eles temem a competição com produtos do Mercosul que são fabricados a custos inferiores e sob normas ambientais vistas como menos rigorosas em comparação com as da UE. Esses protestos têm resultando em bloqueios e pressões no cenário político, principalmente na França.
Rubens Barbosa, que já ocupou o cargo de embaixador do Brasil em Washington e Londres, declarou: “A oposição de certos países da Europa não é direcionada especificamente ao Mercosul, mas representa conflitos internos entre os produtores estabelecidos e os emergentes na União Europeia. O Brasil se torna, assim, um foco externo dessas rivalidades.”
Enquanto a Europa discute medidas de proteção, a China — que é o maior importador de carne bovina do Brasil — anunciou um sistema de cotas que começará a vigorar em 1º de janeiro de 2026. Esse sistema estipula uma cota inicial de 1,106 milhão de toneladas com uma tarifa de 12% para os volumes dentro da cota, e uma taxa adicional de 55% para excedentes, totalizando assim uma tarifa de 67% sobre as quantidades que superarem o limite.
No ano de 2025, as importações de carne bovina do Brasil pela China alcançaram cerca de 1,7 milhão de toneladas, representando 48,3% do total exportado pelo país. Diante dessa situação, organizações como a ABIEC e a CNA afirmam que serão necessários ajustes na cadeia de produção para prevenir consequências mais amplas para os pecuaristas e aqueles que exportam.
Opção estratégica europeia
Nesse cenário, o pacto entre a UE e o Mercosul se torna ainda mais significativo para o setor agropecuário do Brasil. Apesar de o mercado europeu apresentar requisitos mais rigorosos e uma sensibilidade política elevada, ele proporciona uma maior previsibilidade institucional e potencial de valorização.
Marcos Jank considera que o tratado entre a UE e o Mercosul é extremamente benéfico para ambos os blocos, mas requer uma abordagem pragmática. Ele afirma que a União Europeia não mostrará flexibilidade e que o Brasil deve converter suas demandas em uma vantagem competitiva. Em meio a um ambiente de protecionismo seletivo, a diversificação de mercados se torna não apenas uma alternativa, mas uma estratégia fundamental para o futuro do agronegócio no Brasil.
Rubens Barbosa destaca: “O principal desafio para o Brasil é harmonizar sua política externa com a estratégia comercial, garantindo que o país colha benefícios sem se vulnerabilizar a crises externas.” (Foto: Reprodução)
Por Opinião em Pauta com informações da BBC



