Empresas poluidoras patrocinam cobertura de mídia na COP 30

Henrique Acker –   Grandes empresas brasileiras e multinacionais conhecidas por atividades que agridem o meio ambiente são patrocinadoras da cobertura de diversos veículos de imprensa na COP 30, em Belém. É o que revela uma reportagem do portal Intercept Brasil.

O levantamento do Intercept detectou 59 entidades diferentes – entre empresas privadas, multinacionais, governos, farmacêuticas, bancos, supermercados e ONG – que patrocinam a cobertura da mídia na COP30.

 

Vale, JBS e Suzano

É o caso da Vale, uma das responsáveis (junto com a BHP) pela tragédia de Mariana, em Minas Gerais. A Vale também foi responsável pelo desastre de Brumadinho.

A empresa patrocina a cobertura de oito órgãos de comunicação: Folha de S.Paulo, O Globo e Valor Econômico, o jornal do Pará O Liberal, bem como a rádio CBN, a revista Veja e os portais de notícias Neofeed e Brazil Journal.

A JBS, mega empresa do setor de carnes responsável pela maior carga de poluição em gases estufa do Planeta, patrocina sete grupos de mídia na cobertura da Conferência. São eles a CBN, Estadão, Folha de S.Paulo, O Globo, Valor Econômico, Veja e Neofeed.

A Suzano, gigante do setor de papel e celulose, também consta como patrocinadora de parte da mídia no evento. A empresa está envolvida em denúncias de uso de agrotóxicos e violações de direitos contra comunidades quilombolas em diferentes regiões do país. CBN, O Globo, Valor Econômico e Capital Reset contam com patrocínio da Suzano.

 

Ambipar e Hydro

A Ambipar também investe pesado na cobertura da revista Exame e dos jornais Folha de S.Paulo e Estadão, enquanto lidera projeto de carbono que pretende usar terras públicas e está impedindo pescadores de trabalhar na Ilha do Caju, no Maranhão, em aliança com um empresário sueco.

O grupo norueguês Hydro, do setor de alumínio, condenado pela Justiça Federal no ano passado a pagar R$ 100 milhões por um desastre ambiental em Barcarena, no Pará, é outro a financiar parte da mídia brasileira durante a COP 30.

A Hydro está apoiando a cobertura de CNN, Estadão, Exame e do jornal O Liberal, do grupo Liberal de comunicação, do Pará, estado-sede da COP30.

 

Cooptação das Nações Unidas

“Não existe patrocínio neutro. Nenhuma organização e certamente nenhuma empresa privada dará dinheiro, apoio ou seu nome a outra organização ou evento, a menos que veja um benefício para si mesma”, afirmou ao Intercept Brasil a professora da escola de comunicação da Rutgers University, Melissa Aronczyk, uma das principais pesquisadoras do mundo sobre a influência das empresas poluidoras na mídia.

“Em 1992, líderes de empresas, agências de relações públicas, publicitários e lobistas vieram ao Rio para garantir que a voz das empresas fosse representada. E isso só piorou a cada ano, desde então. Temos mais de 30 anos de cooptação da Cúpula das Nações Unidas sobre o Clima”, diz Aronczyk.

Nas décadas de 70 e 80 o foco das grandes empresas poluidoras era negar ou colocar em dúvida as mudanças climáticas. No século XXI o objetivo dessas mesmas empresas ao financiar a mídia é retardar a busca e o encontro de soluções para as mazelas sofridas pelo meio ambiente, como consequência de suas atividades.

 

Influenciar a opinião pública

Segundo a pesquisadora Deborah Salles do Netlab, o Laboratório de Internet e Redes Sociais da UFRJ, o financiamento da mídia por grandes corporações poluidoras levanta suspeitas sobre a capacidade de o jornalismo brasileiro cobrir temas complexos e sensíveis de forma independente, inclusive para os seus patrocinadores.

“Ao influenciar a opinião pública e tomadores de decisão e garantir que a cobertura vai continuar sendo pouco incisiva, a gente continua com essa possibilidade de passar projetos de lei da devastação e derivados. Em alguma medida, a comunicação corporativa tem como objetivo garantir mais espaço para essas empresas, e mais espaço é menos estresse para as suas atividades”, analisa Salles.

Para desenvolver a pesquisa, o Intercept Brasil considerou dados de TV, rádios, veículos impressos e online de maior alcance. A referência para isso são os dados do Reuters Digital News Report 2025, relatório produzido anualmente pelo Instituto da Reuters na Universidade de Oxford, na Inglaterra, que analisa as tendências de consumo de mídia. (Foto: Reprodução)

 

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do Intercept Brasil (por Alice de Souza)

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