Henrique Acker – A Polícia Civil do Rio apresentou no domingo (2/11) um primeiro relatório sobre os 121 mortos na Operação Contenção nos complexos do Alemão e da Penha. Pelo levantamento, 17 pessoas não tinham antecedentes criminais.
De acordo com a polícia, mesmo sem registros criminais, 12 dessas pessoas possuíam indícios de participação no tráfico de drogas, por suas postagens em redes sociais. Nenhum dos mortos havia sido denunciado à Justiça pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, apesar de pesarem mandados de prisão sobre 59 deles.
No entanto, o principal alvo da operação – Edgar Alves de Andrade, conhecido como “Doca” – líder do Comando Vermelho (CV) na região da Penha, continua solto. Apesar do governador Cláudio Castro ter considerado a operação de 28 de outubro um “sucesso”, o Comando Vermelho mantém suas atividades nos complexos da Penha e do Alemão.
Moraes no Rio
O ministro do STF, Alexandre de Moraes, esteve no Rio em 3 de novembro para uma série de encontros. Além de conversar com o governador e o prefeito da Capital, Moraes esteve com o Defensor Público-Geral, o Procurador-Geral e o presidente do Tribunal de Justiça.
Em 2 de outubro, Alexandre de Moraes determinou a preservação “rigorosa e integral” dos elementos materiais relacionados à execução da Operação Contenção. A medida visa verificar se as exigências legais previstas na ADPF 635 – que condiciona as incursões policiais em favelas – foram garantidas na operação de 28 de outubro.
Origem das armas
De acordo com levantamento da Secretaria de Segurança/RJ, 94,7% dos 797 fuzis apreendidos em 2024 pela polícia do Rio tinham sido fabricados no exterior, principalmente nos Estados Unidos (60%). Outros países citados são Israel, Alemanha, Áustria e República Tcheca.
Além da importação de armas dos EUA e do mercado europeu, via Paraguai, os grupos de tráfico de drogas têm no mercado nacional importantes aliados para obter armas e munições.
Recentemente a polícia estourou duas fábricas de armas, em Minas e S. Paulo, que operavam sob a capa de uma companhia industrial comum. Essas empresas fabricavam réplicas de fuzis e pistolas estrangeiras, vendidas ao CV e a outros grupos criminosos.
Gente coisa é outra fina
No WhatsApp do traficante do CV conhecido como Da Roça, a polícia identificou comprovantes de transferências feitas por laranjas do tráfico para contas de Eduardo Bazzana e de suas empresas, sediadas no interior de São Paulo.
Bazzana se apresentava como empresário de sucesso. À frente do Clube Americanense de Tiro, que já sediou campeonatos sul-americanos, lidava uma clientela que incluía médicos, advogados, políticos e policiais, e cobrava uma anuidade de R$ 750.
De acordo com o Gaeco, as transações registradas via PIX, coincidem com valores e datas registradas na planilha, comprovando o repasse de dinheiro pela compra de armas destinadas ao CV.

Sem fiscalização
Pelo levantamento dos dados da planilha, o CV teria gasto mais de R$ 5 milhões em armamentos em apenas um mês. Da planilha consta a compra de 44 mil cartuchos de calibres 7,62 e 5,56 e 14 fuzis, entre eles, um de calibre Ponto 50, capaz de atravessar blindagens e derrubar aeronaves.
Parte dessas armas e munições tem como origem os Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores (CACs), e depois desviadas, de acordo com artigo com dados inéditos sobre o tema, dos pesquisadores Bruno Langeani e Natalia Pollachi, publicado em setembro deste ano pelo Journal of Illicit Economies and Development.
“Liberou geral” no governo Bolsonaro
Durante o governo Bolsonaro vigorou legislação que facilitava a importação e registro de armas por CACs, o que cessou em 2023, quando a fiscalização passou do Exército para a Polícia Federal.
Os números conhecidos provam que o registro de armas por CACs disparou entre 2019 e 2022 (680.808 concessões), período do “liberou geral” do governo Bolsonaro. Nesses três anos, a importação de armas por CACs quintuplicou em relação ao triênio 2015/2018 (total de 123.055 armas).
Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), a pedido do Congresso Nacional, identificou uma série de falhas nesse controle. Uma delas é que o Exército não conferia a veracidade de informações apresentadas por quem fazia os registros. Também não havia qualquer informação sobre fiscalizações feitas aos clubes de tiro.
Na imagem destacada, armas apreendidas pela Polícia Federal em uma das fábricas clandestinas de réplicas de fuzis no Brasil. (Foto: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações da BBC News Brasil, G1 e Agência Brasil e imagens do G1 e BBC News Brasil



