Alemão: outro banho de sangue para enxugar gelo

Henrique Acker  – Pela enésima vez a população brasileira assiste a um massacre em comunidades de favelas do Rio. O roteiro é quase sempre o mesmo: a polícia faz uma operação para prender traficantes. O resultado também: dezenas de mortos, outro tanto de feridos, cocaína e armas apreendidas.

Desta vez, num local já conhecido de todos, no chamado Complexo de favelas do Alemão, na Penha, bairro da zona da Leopoldina, no Rio. Sob a alegação de combate ao tráfico de drogas, o governo estadual mobilizou cerca de 2.500 policiais civis e militares, na Operação apelidada de “Contenção”.

Não é preciso ser especialista no assunto para concluir o óbvio. A polícia entrou atirando e foi recebida a bala. Até o momento em que fechava este artigo, já havia 22 mortos, 81 presos e um outro tanto de pessoas feridas, inclusive inocentes. Um banho de sangue para enxugar gelo.

Em 2007, cerca de 2.600 policiais invadiram o mesmo Alemão, com apoio da Força Nacional e de efetivos das Forças Armadas. Para que? Combater o tráfico de drogas. Saldo: 19 mortos. Passados 18 anos, a cúpula da segurança pública do Rio repete o mesmo enredo.

“Fomos lá desmanchar bunkers, ilhas inexpugnáveis e devolver direitos aos cidadãos”, disse em 2007 o então secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame. As metas anunciadas foram atingidas?

Os traficantes mais uma vez deram um jeito de fugir pelos mesmos caminhos que usaram em 2007. E de voltar mais a frente, porque o Estado nunca se estabeleceu por lá.

Para justificar mais um massacre, dessa vez o governador Cláudio Castro aponta o dedo ao governo federal. Segundo ele, “tivemos pedidos negados três vezes, cada dia uma razão para não estar colaborando”. Será que ele esqueceu que a segurança pública é de sua responsabilidade, como prevê a Constituição?

Aliás, não só a segurança pública é dever constitucional dos estados, mas tantas outras obrigações elementares que deveriam ser asseguradas com os impostos pagos pela população. Entre elas a Educação pública e de qualidade, a Saúde pública, o saneamento básico (serviços de água e esgoto), a urbanização de ruas, transporte público, os acessos, iluminação, etc.

Tudo que seria elementar para assegurar uma qualidade de vida mínima é negado às 180 mil pessoas das 15 favelas do Complexo do Alemão e das outras mais de 1.700 favelas da cidade do Rio. Simplesmente o Estado não existe ou funciona precariamente. E há os que ainda defendem a privatização de tudo.

 


Mapa do controle territorial do Rio (Pega a Visão RJ – 2025)

 

Em terra de ninguém, o poder se estabelece pela força bruta. É assim que o tráfico e as milícias dominam 60% do território do Estado do Rio. Só que agora o problema deixou de ser do Rio ou de S. Paulo. O tráfico de drogas e armas é parte de uma realidade em todo o país e, com ele, a violência dos grupos que o controlam.

A resposta não está no fortalecimento do orçamento das polícias, a compra de armas, blindados e o combate armado aos grupos que controlam o tráfico de drogas. Até porque os governadores do Rio, S. Paulo e outros estados parecem exercer uma certa cumplicidade com esses grupos, sobretudo com as milícias.

Não dá para levar a sério uma polícia que contrata errado, paga mal e treina pior ainda. Como prêmio de consolação, os policiais militares completam o orçamento com outras atividades, através do chamado “bico”.

E aí vale tudo, inclusive atividades ilegais, vendendo dificuldade para obter facilidade. É daí que surgiram e se afirmaram as milícias, que atormentam a vida da população. No Rio, as milícias controlam 57% do território da capital, disputando espaços com o Comando Vermelho (CV), Amigos dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando Puro (TCP) também no Grande Rio e interior.

Segurança Pública no século XXI se faz com inteligência e pessoal especializado, como qualquer outra atividade.

Não é difícil identificar as rotas de tráfico, num país que praticamente não produz drogas. Não é complicado montar uma central de dados e de mapeamento digital dos principais centros de entrada e saída de drogas e armas, e os grupos que operam no ramo. Esses passos são determinantes para sufocar o tráfico.

O mais fácil é se eximir de responsabilidade e empurrar o problema para o outro. Ainda mais em véspera de eleições. Seria mais eficaz limpar as polícias, refazendo os marcos de sua organização. Mas será que os governantes querem mesmo enfrentar o problema? Ou será que eles também são parte do problema?

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de O Globo, CNN Brasil e G1 e imagens do R7 e Pega a Visão RJ

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