Apesar da fragilidade econômica, dos escândalos de corrupção e da política que ataca serviços públicos e trabalhadores em geral, o partido do presidente Javier Milei saiu vitorioso das eleições parlamentares de 26 de outubro na Argentina.
O maior cabo eleitoral dessa vitória foi o medo, mais precisamente o presidente dos EUA, Donald Trump. No encontro com Milei na Casa Branca, em 14 de outubro, Trump deixou claro que “Se ele perder (as eleições), não vamos ser tão generosos com a Argentina”.
Foi o suficiente para que a chantagem entrasse como elemento na campanha eleitoral, o que resultou numa vitória do partido La Libertad Avança, do atual presidente argentino. Horas depois de confirmado o resultado das urnas, Trump declarou que os Estados Unidos “estão focados na América do Sul e estão ganhando um forte controle” sobre a região.
Governo sem maioria
O resultado, apesar de positivo, não foi confortável para Milei. Nestas eleições foram renovadas metade das 257 cadeiras na Câmara dos Deputados para o período legislativo de 2025 a 2029, e 24 das 72 cadeiras no Senado para o período de 2025 a 2031.
O partido La Libertad Avança, de Milei, venceu nas principais províncias (inclusive Buenos Aires), obtendo 40,7% dos votos (total de 9.341.798). Agora conta com 93 deputados e 19 senadores. O peronista Fuerza Patria ficou com 34,9% dos votos (total de 8.027.098), e ainda é o maior partido na Câmara e no Senado, agora com 96 deputados e 26 senadores.
Os analistas advertem que além de não ter maioria no parlamento, o partido de Milei não possui um aliado forte e natural que lhe assegure blindar vetos e resistir à agenda da oposição. Nada que impeça Milei de cativar as bancadas dos partidos conservadores na Câmara e no Senado.

Peronismo sem cara
Ainda não há uma explicação para uma vitória de um governo que manda a polícia espancar aposentados nas ruas e afundado em escândalos de corrupção, envolvendo a própria irmã do presidente. Apesar da queda da inflação, boa parte dos argentinos passou a se endividar no cartão de crédito para comprar comida.
Maior setor de oposição, o peronismo segue em disputas internas e não apresentou uma cara e um programa claro nestas eleições. Apostou no desgaste natural do governo e não obteve êxito. Além disso, contou com o desgaste de alguns de seus governos nas províncias.
Por sua vez, a esquerda argentina segue mal das pernas. Quinta colocada, a Frente de Izquierda obteve 3,9% dos votos (897.063) e o MAS só alcançou 0,7% dos votos (167.090).
América Latina em disputa
O fortalecimento parlamentar do governo neoliberal na Argentina é uma das batalhas pela disputa de hegemonia na América Latina. Apesar do recuo da Conaie, ainda há grandes manifestações indígenas no Equador contra o governo direitista de Daniel Noboa. No Peru, o movimento pela destituição de José Jeri e por uma nova Constituição segue forte nas ruas.
No mar do Caribe o governo Trump reforça a frota naval com um porta-aviões. Seguem as operações contra pequenas embarcações que circulam na região, vitimando dezenas de pessoas, muitas delas confundidas com narcotraficantes.
Crescem as desavenças entre Gustavo Petro, presidente da Colômbia, e Trump, em função da política intervencionista na região, que ameaça os governos de esquerda da Colômbia e da Venezuela. Petro acusa o governo Trump de hipocrisia. Para ele, o problema está dentro e não fora dos EUA, maior centro de consumo e de lavagem dos recursos obtidos com o narcotráfico do planeta. (Foto: Reuters)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de Página 12, Clarín, G1, BBC News, Poder 360 e Agência Brasil. Gráfico de Poder 360 e imagem AFP



