O descontentamento popular sacode o Peru desde meados de setembro, desta vez com forte presença dos estudantes e de jovens da chamada “geração Z”, nascidos entre 1995 e 2010. A juventude recém-formada não encontra resposta para ser absorvida pela atual sociedade peruana. A eles se somam trabalhadores e outros setores mais pobres.
Uma crise institucional assola o país há cerca de dez anos. Nesse período, houve oito presidentes, a maioria deles destituída do cargo, vários deles estão presos: Alejandro Toledo, extraditado dos Estados Unidos; Ollanta Humala; Pedro Castillo; e, até pouco antes de sua morte, Alberto Fujimori. Para evitar sua detenção, Alan Garcia cometeu suicídio.
Manifestantes querem nova Constituição
Para enfrentar as manifestações, o ex-presidente do Congresso da República e presidente recém-empossado, José Jéri, apelou à repressão policial e aprovou o “estado de emergência” na capital Lima, afirmando que “guerras se vencem com ações, não com palavras”.
Além da saída do presidente interino, os manifestantes pedem ações contra o aumento da criminalidade, o fechamento do Congresso, a convocação de uma assembleia constituinte para redigir uma nova Constituição do país.
Entre as medidas impopulares aprovadas recentemente pelos parlamentares, está a exigência de contribuição dos autônomos para a concessão de aposentadorias, limitando ao valor mínimo o saque que os menores de 40 anos poderão fazer antecipadamente.
A popularidade das instituições é pífia entre a população. É o que prova pesquisa do Instituto Nacional de Estatística e Informática (INEI), realizada em junho deste ano (Confira no gráfico abaixo).

Marionete do Congresso
Eleito em meados de 2021 com forte apoio popular e com um programa de mudanças, Pedro Castillo enfrentou uma oposição frontal do parlamento peruano, mas também é acusado de ter se desviado dos compromissos de campanha. Ele foi destituído em 2022 por anunciar o fechamento do Congresso Nacional, o que intensificou a crise política.
A sucessora de Castilho, a vice Dina Boluarte, se prestou ao papel de marionete dos partidos de direita e extrema-direita que dominam o Congresso peruano, ao aceitar conduzir o Executivo até abril de 2026 sem contrariar os interesses das classes dominantes.
Boluarte abandonou os compromissos de campanha e passou a reprimir as manifestações populares, convocadas em 2023 pela base popular e indígena que elegeu Castillo. A presidente classificou os manifestantes de terroristas e financiados por traficantes de drogas. A violenta repressão policial-militar deixou um saldo de 50 mortos e 1.400 feridos.
Parlamento minado
Em troca por ser útil a forças políticas conservadoras, o Congresso arquivou as denúncias fiscais de corrupção que Boluarte tinha antes de assumir a Presidência, o que a livra de investigações pelo Ministério Público.
No período em que governou, Boluarte enfrentou sete pedidos de impeachment, todos rejeitados pela aliança autoritária e conservadora que a apoiava. A presidente tinha baixíssima popularidade (3%) e foi simplesmente descartada pelos próprios aliados em setembro passado, depois de confirmada a data na próxima eleição presidencial.
Em seu lugar, assumiu o presidente do Congresso, José Jéri, do Somos Peru, um partido de centro-direita. Jerí enfrenta investigações por suposto abuso sexual, desobediência à autoridade e enriquecimento ilícito, acusações que são comuns no parlamento peruano. De um total de 130 congressistas, 102 são alvo de processos criminais.
País rico, povo pobre
Apesar do relativo crescimento econômico nos últimos anos, a maioria do povo peruano parece estar longe de gozar de uma qualidade de vida compatível com a riqueza do país.
Além das reservas de petróleo e gás, o Peru é um dos maiores produtores de cobre do mundo e possui as maiores reservas de prata da América Latina, além de grandes reservas de ouro, chumbo e zinco.
Mas os problemas da esmagadora maioria do povo peruano passam longe do parlamento e das instituições do Estado. Um deles é o crescimento da violência. Segundo a ONG Observatório de Direitos Humanos (HRW), o Peru é um dos países da região andina onde as mortes violentas mais aumentaram.
A presença de grupos criminosos que controlam atividades ilegais, além do tráfico de drogas, como a mineração ilegal, e os altos preços do ouro, é um foco de disputas violentas e crescentes. (Foto: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de Rebelion, La República, BBC News Brasil, CNN Brasil e G1 e imagens da AFP e INEI.


