Henrique Acker – Nem todo agressor ou criminoso violento é de extrema-direita, mas há características típicas do comportamento dos valentões que se definem como “patriotas” e conservadores: a agressividade e a covardia. Elas estiveram presentes nos episódios da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 e, recentemente, na ocupação das mesas do Senado e da Câmara dos Deputados.
A violência extrema também invade o cotidiano, como nos casos de Renê Nogueira Júnior – que matou um gari numa rua de Belo Horizonte -, de Cléber Lúcio Borges e de Igor Cabral, ambos flagrados por imagens de câmeras, espancando mulheres no Distrito Federal e em Natal.
Em 2024, o Brasil atingiu o maior número de feminicídios desde o início da tipificação do crime, em 2015. É o que revela o novo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança.
Ao todo, 1.492 mulheres foram vítimas, o que representa uma média de quatro mortes por dia. A maior parte dos crimes (64,3%) ocorreu na residência da vítima. Os autores são, majoritariamente, companheiros (60,7%) e ex-companheiros (19,1%), que juntos somam quase 80% dos casos.
Milícias e impunidade
O elo de ligação entre as ideias fascistas, a violência física e o uso de armas de fogo não é novidade. Há inúmeras ocorrências de espancamento de adversários políticos e ataques a grupos sociais indesejados e odiados pela extrema-direita no Brasil e no mundo. Bolsonaro, por exemplo, sempre defendeu a tortura e morte dos que lutaram contra a ditadura militar.
No Brasil, há uma relação íntima entre o bolsonarismo e milicianos. Alguns deles foram homenageados e tiveram parentes empregados nos gabinetes dos parlamentares da família Bolsonaro. Os casos mais conhecidos são os de Adriano da Nóbrega e de Fabrício Queiroz.
A ideia de que as divergências e conflitos se resolvem pela violência física ou a eliminação do adversário, estimulada pela extrema-direita, se soma à impunidade. São cerca de 40 mil casos de homicídio por ano no Brasil, de diversas espécies e modalidades, grande parte sem elucidação e sem a condenação dos autores.
Uma anistia para os que planejaram dar um golpe de Estado, os que financiaram e os que participaram da trama, em 8 de janeiro de 2023, seria um incentivo aos criminosos. Tolerar os que queriam uma nova ditadura é estimular uma nova oportunidade para quem quiser reincidir no crime.

Lei do mais forte
A facilitação da compra e uso de armas de fogo, adotada a partir do governo Bolsonaro, foi outro fator que afetou a taxa de homicídios no país. A conclusão é do estudo “Armas de fogo e homicídio no Brasil”, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com dados que vão até 2021.
No ano de 2022, 76% das mortes violentas no Brasil foram por armas de fogo, proporção acima da média mundial, de acordo com dados do 17º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2023.
O discurso do bolsonarismo de que qualquer cidadão “de bem” pode ser portador de uma arma de fogo associa a segurança pessoal à compra de armas e munições. Numa sociedade da lei do mais forte, prevalecem os que têm dinheiro e poder para disparar. As vítimas são, em geral, mulheres, menores e trabalhadores.
“Cristão” e “patriota”
Nas últimas semanas, três episódios chamaram a atenção para práticas violentas de extrema gravidade. Os autores não tiveram como negar os crimes – todos cometidos por motivos banais – diante das provas e testemunhas.
No Guará, o empresário Cleber Lúcio Borges espancou a companheira dentro do elevador do prédio onde moram. O agressor foi preso em flagrante por posse ilegal de armas dias depois, mas pagou fiança e foi solto. Em sua casa foram encontradas duas armas de fogo e 518 munições. A mulher ficou internada por cinco dias. O Facebook de Cleber evidencia sua identificação com o bolsonarismo.
Em outro caso que chocou o país, o ex-jogador de basquete Igor Cabral espancou a namorada com mais de 60 socos dentro de um elevador, em Natal. Em sua defesa, Cabral alegou ter sido acometido por um surto de claustrofobia. Em depoimento na delegacia, disse ser portador de autismo, sem apresentar qualquer evidência. Cabral teve prisão preventiva decretada. Ele apagou suas redes sociais, mas há testemunhos de sua opção pela extrema-direita.
Em Belo Horizonte, o empresário Renê Nogueira Junior matou o gari Laudemir Fernandes em plena luz do dia, com uma pistola de propriedade de sua esposa, uma delegada da polícia civil. O crime ocorreu porque Renê exigia que o caminhão de coleta de lixo fosse retirado da rua para que ele pudesse passar com seu carro.
O empresário fugiu e foi encontrado horas depois pela polícia, treinando numa academia de ginástica. Em sua defesa, alegou que a arma do crime e o carro são de sua esposa. Numa rede social, Renê se definia como “cristão, marido, pai e patriota”. Nos três casos, os criminosos ostentam nítidas simpatias por Jair Bolsonaro e as ideias de extrema-direita.
Por Henrique Acker (jornalista e colunista)
Na imagem destacada, golpistas depredando sedes dos três poderes, em Brasília no 8 de janeiro de 2023 (Foto: Reprodução)



