Faltam apenas 3 anos para os piores impactos das mudanças climáticas

Aproximadamente quatro meses antes da COP 30, especialistas apontam a ausência de estratégias por parte das nações para diminuir as emissões de carbono e cumprir o Acordo de Paris.

 

 

Informações negativas sobre o clima estão abundantes. A África é uma das regiões mais afetadas pelas alterações climáticas e por fenômenos climáticos severos, afetando a vida das pessoas e suas fontes de sustento.

Estamos em um planeta que está se aquecendo a uma velocidade crescente desde o início dos registros históricos. Contudo, as reações dos governos têm sido lentas.

A Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30) se aproxima rapidamente. Até fevereiro deste ano, as 197 nações integrantes da ONU deviam ter enviado suas propostas climáticas nacionais atualizadas. Esses documentos detalham as estratégias que cada país adotará para diminuir suas emissões de gases de efeito estufa, em conformidade com o Acordo de Paris, um tratado internacional com força legal. Este acordo obriga todos os signatários a restringir o aumento da temperatura global provocada pelo ser humano a no máximo 1,5°C em relação aos níveis anteriores à industrialização.

As autoridades governamentais precisam apresentar suas novas estratégias de ação climática na COP30, demonstrando como planejam se ajustar aos efeitos das alterações climáticas.

Até o momento, somente 25 nações, responsáveis por aproximadamente 20% das emissões mundiais, submeteram suas propostas, chamadas de Contribuições Nacionalmente Determinadas. Na região africana, esses países incluem Somália, Zâmbia e Zimbábue. Assim, ainda restam 172 países que precisam se manifestar.

As contribuições determinadas a nível nacional desempenham um papel fundamental na definição dos compromissos dos países em um horizonte de curto a médio prazo no que diz respeito às mudanças climáticas. Além disso, elas oferecem um direcionamento que pode influenciar decisões políticas e investimentos mais abrangentes. Integrar as estratégias climáticas com os objetivos de desenvolvimento tem o potencial de elevar 175 milhões de indivíduos da condição de pobreza.

Entretanto, certamente, apenas uma das propostas apresentadasa do Reino Unido – está alinhada com o Acordo de Paris.

Nós somos pesquisadores na área climática, e um de nossos membros (Piers Forster) coordena a equipe que elabora o relatório anual sobre Indicadores de Mudança Climática Global. Esse documento proporciona uma análise abrangente da condição do sistema climático. Ele se fundamenta em medições das emissões líquidas de gases de efeito estufa no mundo todo, avalia como esses gases estão se acumulando na atmosfera, verifica o aumento das temperaturas na superfície terrestre e quantifica a parcela desse aquecimento atribuída às atividades humanas.

O documento também examina o aumento das temperaturas extremas e a intensificação das chuvas, além da elevação dos níveis do mar e da quantidade de dióxido de carbono que ainda pode ser liberada antes que a temperatura da Terra ultrapasse 1,5°C em relação aos níveis da era pré-industrial. Essa informação é crucial, pois é essencial limitar o aquecimento a 1,5°C para prevenir os efeitos mais graves das alterações climáticas.

O nosso estudo revela que, em 2024, o aquecimento global resultado da atividade humana chegou a 1,36°C. Isso levou as temperaturas médias do planeta (um resultado da combinação entre o aquecimento provocado pelo homem e a variabilidade natural do clima) a 1,52°C. Em termos simples, o planetaalcançou um ponto em que os efeitos das mudanças climáticas são inevitáveis e significativos. É evidente que estamos atravessando uma fase crítica.

 

Planeta perigosamente quente

Apesar de as temperaturas globais do ano anterior terem alcançado índices elevados, elas também se tornaram preocupantemente frequentes. As estatísticas são claras. Os constantes recordes de emissões de gases de efeito estufa resultaram em um crescimento das concentrações de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso na atmosfera.

O que se observa é uma elevação nas temperaturas, que está rapidamente fazendo com que se esgote a reserva de carbono disponível (a quantidade de gases de efeito estufa permitida para emissão em um período estabelecido). Se as emissões continuarem nesse ritmo, essa reserva se esgotará em menos de três anos.

É fundamental confrontar essa realidade diretamente: a oportunidade de permanecermos dentro do limite de 1,5 °C está quase se esgotando. Mesmo que conseguimos reduzir as temperaturas adiante, essa jornada será longa e desafiadora.

Simultaneamente, os fenômenos climáticos extremos estão se agravando, acarretando perigos e despesas prolongadas para a economia mundial, além de, mais crucialmente, impactar a vida das pessoas. Atualmente, a África está enfrentando sua crise climática mais letal em mais de dez anos.

É inconcebível pensar em economias que operam sem um acesso ágil a informações confiáveis. Quando uma queda acentuada nos preços das ações ou um período de estagnação no crescimento, os governantes e os líderes do setor privado tomam medidas imediatas. Não haveria aceitação de dados desatualizados a respeito de vendas ou do mercado financeiro.

Entretanto, no que diz respeito ao clima, a rapidez com que ocorrem as mudanças climáticas frequentemente supera as informações que temos. Isso implica que tomar decisões rápidas se torna inviável. Se abordássemos os dados climáticos da mesma forma que lidamos com relatórios financeiros, o alarme se instauraria a cada nova atualização preocupante. No entanto, embora os governos costumem mudar de estratégia diante de uma crise econômica, têm demonstrado uma resposta significativamente mais lenta em relação às indicações que os principais indicadores climáticos — os sinais vitais do planeta — nos apresentam.

 

Estratégias climáticas

Conforme diversas nações avançam na elaboração de suas estratégias climáticas, chegou o momento para que os líderes globais confrontem as realidades difíceis apresentadas pela ciência do clima.

Governos necessitam de acesso ágil a informações climáticas precisas para elaborar planos nacionais de clima que estejam atualizados. Além disso, esses planos devem incorporar uma visão global, uma vez que isso é fundamental para promover justiça e equidade. Um exemplo disso é que os países desenvolvidos devem admitir que contribuíram mais para a emissão de gases de efeito estufa, assumindo a responsabilidade de liderar ações ambiciosas de mitigação e de oferecer apoio financeiro para que outras nações possam realizar a descarbonização e se adaptar às mudanças.

Na África, a ONU está promovendo a Semana Climática da UNFCCC em Adis Abeba, programada para setembro. Além de discutir estratégias para a COP30, haverá palestras sobre como acessar recursos financeiros para o clima e assegurar que a transição para emissões líquidas zero de carbono até 2050 seja justa e equitativa. O encontro também visa auxiliar os países que ainda estão desenvolvendo seus planos climáticos nacionais.

Caso as metas de contribuições nacionais sejam efetivamente colocadas em prática, a velocidade das transformações climáticas será reduzida. Isso é essencial não somente para as nações — e suas economias — que estão atualmente mais afetadas pelas mudanças climáticas, mas também para o funcionamento da sociedade em nível global.

Somente cinco nações do G20 divulgaram suas metas para 2035: Brasil, Canadá, Japão, Estados Unidos e Reino Unido. Vale destacar que o G20 é responsável por aproximadamente 80% das emissões mundiais. Isso indica que a presidência atual da África do Sul no G20 pode facilitar a priorização de iniciativas que apoiem os países em desenvolvimento na captação de recursos para sua transição rumo a uma economia com baixo carbono.

Um aspecto alarmante é que apenas 10 das contribuições determinadas a nível nacional revisadas confirmaram ou fortificaram os compromissos de deixar de usar combustíveis fósseis. Isso indica que as estratégias climáticas da União Europeia, China e Índia serão cruciais para avaliar sua liderança em questões climáticas e para sustentar as metas de temperatura de 1,5 °C estabelecidas no Acordo de Paris. Diversas nações observarão as promessas feitas por esses países antes de elaborar seus próprios planos climáticos.

As informações contidas em nosso relatório auxiliam a sociedade a compreender não apenas os eventos que ocorreram nos anos recentes, mas também a antever o que está por vir.

Acreditamos que esses países, entre outros, possam desenvolver propostas ousadas e viáveis muito antes da COP30. Caso consigam, isso poderá, enfim, reduzir a diferença entre a conscientização sobre a crise climática e a realização de ações concretas para combatê-la. Cada tonelada de emissões de gases que aquecem a atmosfera é significativa.  (Foto: Dados do Copernicus Sentinel)

Por Opinião em Pauta com informações do The Conversation

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