Henrique Acker – A Espanha enfrenta uma onda de migração de dezenas de milhares de jovens, que chegaram a Ceuta e Melilla nadando pela costa do Marrocos até território espanhol no Norte da África. As imagens correram o mundo, com uma avalanche de pessoas vagando pelas ruas de Ceuta.
Famílias inteiras contornaram o quebra-mar entre os territórios marroquino e espanhol. Outros saíram de pontos próximos e alcançaram as duas cidades a nado. Milhares de marroquinos se concentraram na cidade fronteiriça de Fnideq para seguir a pé até Ceuta.
Fala-se de 70 mil pessoas que chegaram ao território autônomo em menos de uma semana, mas o governo espanhol informou que seriam cerca de 50 mil. Nas últimas horas, ainda segundo fontes de Madri, 38 mil imigrantes já teriam retornado ao Marrocos.
Decisão da Justiça gerou confusão
O primeiro-ministro socialista, Pedro Sanchez, e o presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas (PP), atribuíram o problema à interpretação de uma recente decisão do Supremo Tribunal de Justiça da Espanha, criando a expectativa de que todos os migrantes seriam acolhidos no país.
A decisão da Suprema Corte, adotada no início de julho, assegura aos migrantes que chegam ao país por mar a abertura de processos sem serem deportados sumariamente, ao contrário daqueles que atravessam por terra ou escalam a cerca da fronteira.
O primeiro-ministro reconheceu que houve uma violação das fronteiras, estimulada por máfias do tráfico de pessoas. “Aparentemente, essa interpretação da decisão da Suprema Corte se espalhou como fogo em palha nas últimas horas pelas redes de organizações de tráfico humano, desencadeando o tipo de onda massiva que testemunhamos”, declarou Sanchez.
Direita e extrema-direita culpam governo
No entanto, a oposição de direita e extrema-direita aponta a responsabilidade para o governo. Tanto José Lopez Feijóo, dirigente do Partido Popular (franquista), quanto Santiago Abascal, do Vox (extrema-direita), acusaram o governo do PSOE pela situação.
Feijóo declarou que a situação é insustentável e propôs que o governo acione o Artigo 23 da Lei de Segurança Nacional para enfrentar a crise. O dirigente do PP propôs que Sanchez feche as fronteiras, mobilize o exército e use da diplomacia para negociar com o governo de Marrocos e a União Europeia.
Abascal chamou os marroquinos de invasores e disse que as medidas adotadas pelo governo de Sanchez provocaram a tomada de parte do território espanhol por imigrantes. Disse ainda que o primeiro-ministro do PSOE atua como inimigo dos espanhóis e propôs seu julgamento e prisão.
A direita culpa o governo por conceder autorizações de residência e de trabalho a centenas de milhares de migrantes que já viviam na Espanha sem estar legalizadas. Na verdade, a medida se aplica apenas a migrantes que entraram irregularmente no país até o final de 2025.
Os partidos de direita e a extrema-direita da Europa aprovaram em junho, no Parlamento Europeu, uma nova legislação, visando acelerar a deportação de imigrantes e criar centros de detenção em países fora da União Europeia.
Uma manifestação convocada para esta sexta-feira, 31 de julho, reuniu milhares de pessoas em Madri para pedir a renúncia de Pedro Sanchez.
Interesses em jogo
Analistas internacionais apontam coincidências entre a recente viagem de Pedro Sanchez à Argélia, que selou uma reaproximação entre os dois países depois de quatro anos, e a crise migratória com o Marrocos. Até então, o governo espanhol defendia a autonomia do território do Saara Ocidental, mesma posição do governo marroquino, contra a posição argelina.
De outro lado, a aproximação entre o rei do Marrocos e Israel, em torno dos chamados acordos de Abraão, levanta dúvidas sobre a facilidade com que dezenas de milhares de pessoas conseguiram se concentrar na fronteira marroquina com a Espanha e chegar em território espanhol sem qualquer repressão policial.
As forças de segurança marroquinas, conhecidas por sua atuação violenta na fronteira com a Espanha, não tomaram qualquer medida para conter a onda migratória dos últimos dias. O rei Mohammed VI ainda não se pronunciou a respeito.
O governo espanhol é um dos poucos na Europa que assume posição firme nas denúncias contra o genocídio promovido por Israel em Gaza e a favor de um Estado Palestino. (Foto: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de G1, BBC News Brasil e CBN.



