Uma empresa norte-americana que presta serviços linguísticos a órgãos militares e de inteligência dos Estados Unidos abriu uma vaga para professor de português brasileiro para participar de um treinamento especializado previsto para outubro e novembro de 2026 — período que coincide com a reta final das eleições no Brasil.
A informação foi publicada nesta terça-feira (22) pela coluna da jornalista Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo.
A Ascensus Global procura um profissional com português nativo, domínio do inglês e experiência no ensino do idioma a militares ou funcionários de órgãos governamentais. O programa terá duração de três semanas: uma semana de atividades virtuais e outras duas presenciais em Montgomery, no Alabama.
Português brasileiro
A contratação chama atenção por algumas características que a diferenciam de outras oportunidades abertas recentemente pela empresa.
Segundo a Folha, a Ascensus Global também divulgou vagas para professores de espanhol, árabe, mandarim e português europeu. Essas posições, porém, não estabelecem um período específico para a realização dos treinamentos.
Entre as vagas mencionadas pela reportagem, a destinada ao português brasileiro é também a única que faz referência direta à experiência no ensino de integrantes das Forças Armadas ou profissionais ligados ao governo dos Estados Unidos.
No anúncio, a empresa informa que o instrutor dará suporte a um “programa de treinamento especializado”. Além do domínio dos dois idiomas, o candidato deve possuir experiência em interpretação e tradução entre português e inglês.
Entre as atribuições estão a preparação de materiais didáticos de acordo com os objetivos do programa, a incorporação de exercícios de interpretação ao treinamento, aulas ministradas em português e participação na avaliação dos alunos.
O programa prevê ainda exercícios presenciais de simulação, além de outras atividades voltadas à aplicação prática do idioma.
Órgãos militares e de inteligência
A Ascensus Global se apresenta como uma empresa pertencente à categoria norte-americana de negócios controlados por veteranos com deficiência relacionada ao serviço militar.
Segundo a própria companhia, são mais de 21 anos de atuação na prestação de serviços linguísticos, treinamento cultural e apoio de análise.
A empresa afirma atender mais de 40 clientes militares e de inteligência dos Estados Unidos, além de mais de 2 mil organizações governamentais civis, comerciais e sem fins lucrativos.
Instalações militares norte-americanas.
Outro aspecto que desperta atenção é o calendário estabelecido para o programa. As atividades ocorrerão durante outubro e novembro, justamente quando o Brasil estará atravessando o período decisivo das eleições de 2026.
Duas das três semanas de treinamento serão presenciais em Montgomery, capital do Alabama e cidade que abriga instalações militares norte-americanas.
Até o momento, porém, não há informação pública identificando qual órgão ou unidade receberá o treinamento. Tampouco existem elementos no anúncio que estabeleçam relação entre o programa de ensino de português e as eleições brasileiras.
A coincidência de datas ocorre, contudo, em um momento de atenção das autoridades brasileiras para eventuais tentativas de influência estrangeira sobre o processo eleitoral.
Interferência externa
Segundo informações divulgadas pela Folha, um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre ameaças às eleições de 2026 elevou a possibilidade de influência e interferência externa dos Estados Unidos a um “nível de criticidade”.
O documento teria sido encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça.
De acordo com a reportagem, a análise aponta uma tendência de aumento das pressões norte-americanas sobre o Brasil e avalia que o governo do presidente Donald Trump tem entre suas prioridades estratégicas reafirmar a influência dos Estados Unidos na América Latina.
Não há, entretanto, evidência pública que vincule a contratação feita pela Ascensus Global às preocupações descritas no relatório da Abin. O que existe, até agora, é a coincidência temporal entre um treinamento especializado de português brasileiro destinado a profissionais com perfil militar ou governamental e a fase decisiva do calendário eleitoral brasileiro. (Foto: Reprodução)
Por Opinião em Pauta com informações da Folha



