Donald Trump parece estar disposto a retomar a política de intervenção direta dos EUA na América Latina. Na quarta-feira (15/10), o presidente estadunidense confirmou que deu autorização à CIA para realizar “operações secretas” em território venezuelano, como parte de um plano de pretenso combate ao narcotráfico.
Trump falou à imprensa no Salão Oval da Casa Branca, em Washington. Nas últimas semanas, forças navais dos EUA realizaram cinco ataques a barcos considerados suspeitos de transportar drogas perto da costa venezuelana, matando 27 pessoas.
Coletiva de imprensa
Ao lado do diretor do FBI, Kash Patel, e da procuradora-geral, Pam Bondi, o presidente dos EUA foi questionado sobre uma reportagem do New York Times, que trouxe evidências da realização de operações terrestres da CIA na Venezuela.
“Autorizei por duas razões, na verdade”, disse ele. “Número um: eles [Venezuela] esvaziaram suas prisões e enviaram [os presos] para os EUA.”
“E a outra coisa são as drogas. Recebemos muitas drogas vindo da Venezuela, e grande parte das drogas venezuelanas entram pelo mar. Então você precisa ver isso, mas também vamos detê-las pela terra”, argumentou Trump.
Trump se recusou a responder quando perguntado se a autorização à CIA permitiria à agência derrubar Maduro.
Estudos desmentem Trump
A Venezuela desempenha um papel secundário no tráfico de drogas da região. O país não produz e nem refina drogas, embora seja uma rota de trânsito para alguns grupos de traficantes, mas não a maior.
O governo dos EUA alega que Nicolás Maduro controla o cartel conhecido como Trem de Aragua. No entanto, uma avaliação de agências de inteligência dos EUA nega essa conclusão.
A consultora sênior da União Europeia para Políticas sobre Drogas na América Latina e Caribe, Gabriela de Luca, informou à Agência Brasil que a Venezuela não é uma produtora relevante, mas sim uma rota de passagem da droga para os EUA.
O documento mais recente da Agência das Nações Unidas para Drogas e Crime (UNODC), o Relatório Mundial sobre Drogas de 2025, afirmou que os principais fluxos de tráfico de cocaína continuam sendo dos países andinos, citando diretamente Colômbia, Bolívia e Peru, sem referências diretas à Venezuela.
Alerta para tentativa de “mudança do regime”
O Ministério das Relações Exteriores da Venezuela emitiu comunicado no qual denunciou que o emprego da CIA, assim como de destacamentos militares no Caribe “configuram uma política de agressão, ameaça e fustigamento contra a Venezuela.”
“É evidente que essas manobras visam legitimar uma operação de “mudança do regime”, com a finalidade de se apropriar recursos petrolíferos venezuelanos”, diz a nota da chancelaria venezuelana.
O governo da Venezuela anunciou que pretende levar a questão à próxima reunião do Conselho de Segurança e ao secretário-geral da ONU. No comunicado, o regime bolivariano informa que pretende exigir uma prestação de contas dos Estados Unidos e a adoção de medidas urgentes que impeçam uma escalada militar no Caribe.
Histórico de golpes
O governo estadunidense enviou oito navios de guerra, um submarino nuclear e caças para o Caribe, no que a Casa Branca chama de esforço para reprimir o narcotráfico na região.
O histórico de ações “secretas” da CIA na América Latina é marcado por operações que visam derrubar governos e assassinar lideranças indesejáveis para o governo dos EUA.
Entre elas consta a invasão da Baía dos Porcos, em 1961, em Cuba, a captura e assassinato de Che Guevara na Bolívia (1968), o golpe militar que derrubou João Goulart no Brasil (1964), o golpe militar no Chile (1973) e o apoio em armas e logística aos “contras”, que pretendiam derrubar o governo sandinista da Nicarágua. (Foto: Reuters)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de New York Times, BBC Brasil, Poder 360, Agência Brasil e Ministério das Relações Exteriores da Venezuela


