União Europeia cede à chantagem de Trump

Henrique Acker   –   Donald Trump e a presidente do Conselho Europeu, Úrsula Von der Leyen, anunciaram no domingo, 27 de julho, um acordo tarifário entre os EUA e a União Europeia. A atual taxa de 4,8% de impostos cobrados sobre produtos europeus que entram nos EUA pula para 15%. No entanto, aço, alumínio e cobre exportados pela UE continuarão sendo taxados em 50%.

O bloco europeu ainda assume o compromisso de comprar gás natural liquefeito pelos próximos três anos, num total de 750 bilhões de dólares, para substituir a importação da Rússia, além de adquirir equipamentos militares e novos investimentos europeus (US$ 600 bilhões) em solo americano. A União Europeia ainda aceitou reduzir de 2,5% para zero a tarifa sobre automóveis importados dos EUA.

 

Planos comprometidos

Trump mostrou-se otimista com o resultado da negociação. “É o maior de todos os acordos”, disse o presidente estadunidense. “15% é certamente um desafio para alguns, mas não devemos esquecer que isso nos mantém o acesso ao mercado americano”, justificou Von der Leyen, diante de um resultado francamente desfavorável aos europeus.

De início, em abril, Trump ameaçou taxar em 30% os produtos europeus. Apesar dos protestos moderados de dirigentes de países da UE, iniciou-se um processo negocial. No entanto, os resultados anunciados apontam para uma evidente submissão aos EUA, que pode comprometer os planos de retomada de crescimento da Europa.

Para muitos economistas europeus, a UE capitulou diante de Trump, sem levar em conta o tamanho do mercado consumidor da Europa, suas ambições sociais, ecológicas e militares de longo prazo, aspectos que são a base do recém-aprovado Relatório Draghi, que propõe reformas para impulsionar o crescimento econômico e a autonomia estratégica da União Europeia.

 

Mundo de predadores

Analistas alertam que a imposição de acordos tarifários pela administração Trump pode condenar a Organização Mundial do Comércio à morte. A OMC nasceu em 1994 e congrega 166 membros. Para ser membro, é preciso, além de se comprometer a respeitar uma série de regras, que o país abra suas fronteiras comerciais e satisfaça às demandas de abertura de seus parceiros mais poderosos.

O primeiro-ministro da França, conservador François Bayrou, admitiu que o 27 de julho foi “um dia sombrio” e de submissão. Em entrevista ao jornal Liberation, o ministro da Economia francês, Eric Lombard, ressalvou que o acordo com Trump foi a solução menos ruim, mas reconheceu que “entramos num mundo de predadores econômicos”.

Em entrevista coletiva, o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, disse que as tarifas acordadas causarão danos “significativos” à economia de seu país. Merz reconheceu que o acordo representa “um sério fardo para a economia orientada à exportação da Alemanha”.

 

Quem paga a conta?

“Qual o preço que os europeus vão pagar por este acordo?”, questionou Bernd Lange, presidente da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu, deputado do grupo dos socialistas e democratas (S&D).

Além do acordo firmado com Trump, os cidadãos europeus terão que sustentar os 5% do PIB de cada país para o setor de segurança, comprando a maioria das armas e munições da OTAN também dos EUA. Isso deverá ter sérias consequências para a qualidade de vida na Europa, com o corte de investimentos em serviços públicos e o aumento dos impostos.

O aumento das taxas das novas tarifas de importação de produtos já começa a incomodar os consumidores estadunidenses. O acumulado da inflação de 12 meses chegou a 2,7% em junho. O preço do café aumentou 2,2% de maio para junho, enquanto o das frutas cítricas subiu 2,3%, mesmo sem a entrada em vigor dos 50% de taxação de produtos brasileiros. (Foto: Reprodução)

Por Henrique Acker (jornalista e colunista)

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