Henrique Acker – Desde que anunciou a retomada da Doutrina Monroe como base de sua política internacional, o governo Trump vem traçando uma ofensiva sobre a América Latina. O primeiro passo foi o cerco militar à Venezuela, até o sequestro e prisão ilegal do presidente Nicolás Maduro.
Seguiu-se um acordo com o regime bolivariano para a ampliação da exploração de petróleo por companhias estrangeiras, a entrega da produção à gestão do governo estadunidense e o ingresso de soldados dos EUA em território venezuelano.
O segundo passo foi a promoção do maior cerco econômico contra Cuba, impedindo a entrada de petróleo e combustíveis no país. A consequência tem sido a queda do turismo na ilha, a paralisia de diversos setores econômicos e até apagões energéticos das usinas de eletricidade movidas a óleo diesel.
O governo cubano partiu para a mobilização popular, em resposta à ofensiva de Trump. Ao mesmo tempo, é forçado a negociar uma saída para a situação que agrava ainda mais as condições de vida e a economia do país, desde o boicote iniciado pelo governo dos EUA desde a Revolução cubana de 1959.
Escudo das Américas
No final de fevereiro, Trump promoveu um encontro com governantes de 12 países da América Latina e Caribe, todos de extrema direita. Não por acaso os governos da Colômbia, México e Brasil não foram convidados a participar do evento promovido por Trump.
No encerramento, foi anunciada a formação do “Escudo das Américas”, uma aliança entre os EUA e governos latino-americanos. O objetivo de Trump é aplicar uma política de contenção contra o avanço da influência da China nas Américas.
O interesse do governo dos EUA é que os vizinhos do sul façam sua parte na defesa de interesses comuns.
“Se nossos parceiros não puderem ou não quiserem fazer sua parte, nós estaremos preparados para agir decisivamente por conta própria”, é o recado que consta do documento de intenções do governo Trump para as Américas, publicado em janeiro deste ano.
Recentemente, a eleição parlamentar na Colômbia foi favorável ao governo de Gustavo Petro, ampliando sua base na Câmara e no Senado. Por sua vez, a presidente do México, Cláudia Sheinbaum, atinge índices de popularidade acima de 70%.
Em comum, os Petro e Sheinbaum têm uma política interna de confrontação com as oligarquias de seus países e de independência em relação aos EUA na política internacional.
Em março, o Congresso do Paraguai ratificou um acordo de cooperação militar com o governo dos EUA, que permite a livre circulação de tropas e equipamentos militares dos EUA naquele país.
No dia 17 de março, Gustavo Petro denunciou a invasão de aviões do vizinho Equador no espaço aéreo colombiano, que redundou na morte de cerca de 30 pessoas, acusadas de tráfico de drogas, cujos corpos foram encontrados carbonizados.
Brasil na alça de mira
Agora, o governo Trump anunciou a disposição de enquadrar o PCC e o CV como “organizações terroristas”, o que equivale a colocá-las como alvos de intervenções armadas de tropas militares dos EUA em território brasileiro.
O chanceler Mauro Vieira foi designado por Lula para demover o governo estadunidense dessa intenção, que ainda precisa ser confirmada por Washington.
Até aqui, a postura do governo Lula tem sido de assistir e não interferir nos conflitos na América Latina. Nada de solidariedade concreta a Cuba, nem um pio sobre o sequestro de Maduro na Venezuela, absolutamente nenhum comentário oficial sobre o tal “Escudo das Américas”.
Há uma evidente disposição de Donald Trump em interferir na eleição presidencial deste ano no Brasil. Um sintoma disso foi a tentativa de uma visita de Darren Beattie, emissário de Trump para conversar com Jair Bolsonaro, além de um encontro com o ministro Nunes Marques, do STF, que será o presidente do Tribunal Superior Eleitoral durante o próximo pleito.
Beate teve seu pedido de visto negado pelo governo brasileiro, mas a iniciativa do governo estadunidense é um sinal óbvio de ingerência na política interna brasileira. (Foto: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista)



