Henrique Acker – Há duas frentes de intervenção do governo Trump que atingem diretamente a América Latina: a primeira, usa um suposto combate a traficantes de drogas como pretexto para uma possível invasão militar da Venezuela, além de ameaças permanentes ao México e Colômbia; a segunda, dentro dos EUA, contra os imigrantes, sobretudo latino-americanos.
Ao mesmo tempo, Washington retoma sua tradicional política conspiratória na região. Trump acaba de lançar a nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos (National Security Strategy). Uma reedição da velha Doutrina Monroe, que permitiu aos EUA intervirem direta e indiretamente na América Latina até o final do século XX.
É o que se vê a partir do apoio escancarado ao governo de Nayib Bukele, de El Salvador, que aceitou receber imigrantes expulsos dos EUA como criminosos. Recentemente, Trump também declarou seu apoio ao governo direitista de Javier Milei, nas recentes eleições na Argentina. E agora, com a suspeita de fraude na eleição de Honduras, onde Trump apoia o candidato de direita Nasry Asfura.
Desculpa esfarrapada
A ofensiva do governo Trump contra Caracas não tem nenhuma relação com o combate ao narcotráfico. Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), a Venezuela é um país de trânsito para apenas 5% da cocaína produzida na vizinha Colômbia e não possui plantações significativas de coca.
Para entender a dimensão do tráfico de cocaína, é necessário mais de uma tonelada de folhas frescas para produzir apenas um quilo da droga. No caso venezuelano, não há o que justifique ataques a rotas terrestres de tráfico de drogas para os EUA.
A Venezuela sequer possui conexões terrestres com o norte do continente americano. A desculpa do fentanil é ainda mais absurda, já que nunca houve qualquer evidência da produção deste opioide sintético ou de seus precursores na região, e ela está fora de qualquer rota global de tráfico.

Maior reserva de petróleo
A Venezuela detém cerca de 17% das reservas conhecidas de petróleo do mundo, segundo o Oil & Gas Journal, totalizando aproximadamente 300 a 303,8 bilhões de barris. A maior parte desta reserva está concentrada no Cinturão do Orinoco, ao norte do país.
“É uma ameaça ilegal de agressão imperialista, considerando a Carta da ONU e o direito internacional. É desproporcional, absolutamente desproporcional, extravagante, como já disse, e desnecessária, pois a Venezuela não foi, não é e nunca será uma ameaça aos Estados Unidos da América”, afirmou Nicolás Maduro ao condenar a ameaça de seu país.
Desde 2 de setembro, Washington já realizou mais de 20 operações contra supostos carregamentos de drogas. Pelo menos 87 pessoas que circulavam em barcos pesqueiros no Caribe morreram, acusadas de “terrorismo”.
Ameaças ao México e Colômbia
Em 17 de novembro, Donald Trump voltou às ameaças, quando afirmou que teria “orgulho” de atacar instalações de narcotráfico no México e na Colômbia.
“A Colômbia tem laboratórios de cocaína onde produzem cocaína. Eu destruiria esses laboratórios. Teria orgulho de fazer isso, pessoalmente. Não estou dizendo que vou fazer isso, mas teria orgulho de fazer isso, porque vamos salvar milhões de vidas fazendo isso”, destacou.
“Ouvi dizer que a Colômbia está produzindo cocaína. Eles têm fábricas de cocaína. Qualquer pessoa que esteja fazendo isso e vendendo para o nosso país está sujeita a ataques”, disse Trump em coletiva de imprensa em 2 de dezembro.
Um dos repórteres presente perguntou: “Não necessariamente apenas a Venezuela?”. Ao que o presidente dos EUA respondeu: “Não, não apenas a Venezuela”.
O presidente dos EUA disse ainda que provavelmente buscaria a aprovação do Congresso para um ataque no México, a partir do combate a grupos de narcotraficantes na fronteira entre os dois países.
“Nós sabemos os endereços de todos os chefões do narcotráfico… sabemos tudo sobre cada um deles. Eles estão matando nosso povo. Isso é como uma guerra. Eu faria isso? Teria orgulho de fazer isso”, comentou Trump.
Presidentes rechaçam
“Ele [Trump] sugeriu em diversas ocasiões, ou disse: ‘Oferecemos a vocês uma intervenção militar dos EUA no México ou o que for necessário para combater grupos criminosos'”, lembrou a presidente do México, Claudia Sheinbaum, em recente coletiva de imprensa.
“Eu já lhe disse que podemos colaborar, que eles podem nos ajudar com qualquer informação que tenham, mas que operamos dentro do nosso próprio território e não aceitamos intervenção de nenhum governo estrangeiro”, afirmou Sheinbaum.
Por sua vez, o presidente colombiano Gustavo Petro foi duro em sua resposta a Trump. “Não ameacem nossa soberania […] Atacar nossa soberania é declarar guerra”, afirmou em uma publicação na rede social X. Em sua resposta, Petro convidou Trump à Colômbia para que pudesse acompanhar de perto os esforços do país para combater o narcotráfico.
“Se existe um país que ajudou a impedir a entrada de milhares de toneladas de cocaína nos EUA, evitando que norte-americanos a consumam, esse país é a Colômbia”, disse Petro.
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações da CNN Brasil, Rebelion, Ag. Lusa, Reuters, BBC News Brasil.



