Henrique Acker – Nada melhor do que o Fórum Mundial de Davos, reunião anual da nata do sistema financeiro, das big tech e das grandes holdings, para lançar um grande negócio. Foi o que fez Donald Trump, ao anunciar oficialmente a criação do seu Conselho da Paz, um grupo internacional de gestão do espólio de guerras, presidido pelo próprio presidente dos EUA.
Enquanto Trump anunciava o seu Conselho de Paz, forças militares israelenses destruíam a agência da ONU para assistência aos refugiados palestinos em Jerusalém oriental ocupada. Segundo Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os territórios palestinos ocupados, “atacar a UNRWA representa o esmagamento dos esforços da comunidade internacional para preservar vidas palestinas.”
Pós-guerra de negócios
Por trás da iniciativa de Trump há não só um desprezo pela ONU e seus organismos de apoio e solidariedade aos que sofrem com as guerras, mas pela própria paz. O que Trump anuncia é a criação de uma organização que tratará de um pós-guerra de negócios, uma compensação de prosperidade para alguns privilegiados após os conflitos.
No caso de Gaza, a ideia central é erguer resorts por cima dos escombros dos crimes de guerra bárbaros que os EUA ajudaram a perpetrar com seu aliado Netanyahu e as forças armadas de Israel. Não houve consulta aos palestinos residentes e sequer à Autoridade Nacional Palestina, que governa a Cisjordânia.
O que diz o manifesto
O manifesto do Conselho possui 13 capítulos, versando sobre diversos temas e objetivos anunciados por seus signatários.
Pelo texto, fica evidente que se trata de uma organização ultra-centralizada, na qual o Conselho Executivo atua sem pedir aval aos países membros e o presidente tem sempre a palavra final sobre qualquer assunto. Isso se comprova a cada capítulo do manifesto.
Principais pontos sobre o funcionamento do Conselho de Paz, seu Conselho Executivo e de seu presidente:
“A participação no Conselho da Paz é limitada aos Estados convidados pelo Presidente” (Capítulo II – Membros, Artigo 2.1);
“As decisões serão tomadas por maioria dos Estados-Membros presentes e votantes, sujeitas à aprovação do Presidente, que poderá também votar na sua qualidade de Presidente em caso de empate.” (Capítulo III – Conselho da Paz, Artigo 3.1, Ítem e)
“O Presidente terá autoridade exclusiva para criar, modificar ou dissolver entidades subsidiárias.” (Capítulo III – Governança, Artigo 3.2 – Presidente, Ítem b)
“O Presidente deverá, em todos os momentos, designar um sucessor para o cargo de Presidente.” (Artigo 3.3 – Sucessão e substituição)
“O Presidente poderá estabelecer subcomissões conforme necessário ou apropriado e deverá definir o mandato, a estrutura e as regras de governança para cada subcomissão.” (Artigo 3.4 – Subcomissões);
“O Conselho Executivo será selecionado pelo Presidente e será composto por líderes de renome internacional.” (Artigo 4.1 – Composição e Representação do Conselho Executivo – Ítem a)
“Emendas à Carta podem ser propostas pelo Conselho Executivo ou por, no mínimo, um terço dos Estados-Membros do Conselho de Paz atuando em conjunto (…) Tais emendas serão adotadas mediante aprovação por maioria de dois terços do Conselho de Paz e confirmação pelo Presidente.” (Capítulo VIII – Emendas à Carta – Artigo 8)
“O Conselho de Paz será dissolvido no momento em que o Presidente considerar necessário ou apropriado.” (Capítulo X – Duração, dissolução e transição)

Forças Armadas de Israel destroem a sede da UNRWA em Jerusalém Oriental
Convites
Cerca de 60 líderes mundiais já receberam o convite para integrar o Conselho. Entre eles, Úrsula von der Leyen (presidente da Comissão Europeia), Vladimir Putin (presidente da Rússia), Narendra Modi (primeiro-ministro da Índia), Recep Tayyip Erdoğan (presidente da Turquia) e Keir Starmer (primeiro-ministro do Reino Unido).
O presidente Lula também foi convidado, mas assim como diversas personalidades e chefes de Estado, ainda não respondeu. Já aceitaram o convite os governos de 22 países, entre eles os líderes da Arábia Saudita, Albânia, Argentina, Egito, Hungria, Israel, Cazaquistão, Canadá, Paraguai, Uzbequistão e Vietnã.
Os primeiros-ministros da França, Emmanuel Macron, e da Alemanha, Friedrich Merz, declinaram do convite, sinalizando que a União Europeia não deve apoiar a iniciativa de Trump.
Conselho Executivo
Para se tornarem membros permanentes, em vez de ser membro por apenas três anos, os países terão de pagar US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,4 bilhões).
O Conselho de Paz terá um Conselho Executivo, formado pelo próprio Donald Trump e um grupo de assessores mais próximos escolhido por ele. São eles:
. Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos;
. Tony Blair, ex-primeiro-ministro do Reino Unido;
. Marc Rowan, empresário bilionário americano e CEO da Apollo Global Management;
. Ajay Banga, presidente do Banco Mundial;
. Robert Gabriel, fiel colaborador de Trump no Conselho de Segurança Nacional dos EUA;
Missão Gaza
Ao mesmo tempo, será formado um Comitê Nacional para a Administração de Gaza, composto por tecnocratas e presidido por Ali Shaath, ex-vice-ministro da Autoridade Palestina.
Entre os objetivos deste Comitê estão o de “supervisionar a restauração dos serviços públicos essenciais, a reconstrução das instituições civis e a estabilização da vida cotidiana em Gaza”, segundo divulgou a Casa Branca.
Também será formado o Conselho Executivo de Gaza, que “ajudará a apoiar uma governança eficaz e a prestação de serviços de alto nível que promovam a paz, a estabilidade e a prosperidade do povo de Gaza”, de acordo com o comunicado do governo dos EUA.
O Conselho será formado por:
Steve Witkoff – empresário do mercado imobiliário, investidor e fundador do Witkoff Group, enviado especial do governo Trump para o Oriente Médio e para Missões de Paz
Jared Kushner – empresário e genro de Trump
Yakir Gabay – bilionário israelense
Marc Rowan – empresário bilionário americano e CEO da Apollo Global Management
Tony Blair – ex-primeiro-ministro da Inglaterra
Nickolay Mladenov – diplomata búlgaro
Sigrid Kaag – coordenadora humanitária da ONU para Gaza
Hakan Fidan – ministro de Relações Exteriores da Turquia
Ali Al-Thawadi – diplomata do Catar
General Hasan Rashad – diretor da agência de inteligência do Egito
Reem Al-Hashimy – ministra dos Emirados Árabes Unidos. (Fotos: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do ICL Notícias, BBC, Wafa (Agência Palestina de Notícias) e G1



