Henrique Acker – A revelação de cerca de mais de três milhões de páginas, dois mil vídeos e 180 mil imagens do caso Jeffrey Epstein em 31/1 pelo Departamento de Estado dos EUA, cruza com a recente apresentação do documento “Resistindo ao domínio dos ricos” pela Oxfam – organização que atua em 77 países – durante o Fórum Mundial de Davos (Suíça).
O vice-procurador-geral dos EUA, Todd Blanche, confirmou que entre os documentos divulgados há imagens de abuso sexual, tortura, ferimentos e até mortes de crianças e adolescentes nos arquivos do caso Epstein, mas que as cenas não foram abertas ao público.
Aliciamento e abuso de menores
Jeffrey Epstein foi um financista bilionário, condenado por crimes sexuais com 250 meninas menores de idade. Ele faleceu na cadeia, em 2019, de forma suspeita, em função de uma série de falhas na segurança de sua cela.
Epstein era um predador sexual com atuação sistemática e possuía uma ilha no arquipélago das Ilhas Virgens, na qual recebia empresários, bilionários e políticos influentes. Um deles é o atual presidente dos EUA, que frequentou a ilha particular de Epstein durante os anos 90 e o início dos anos 2000.
Epstein também visitava Mar-a-lago, clube pertencente a Trump, e mantinha relações próximas com empresários, bilionários e políticos influentes.
Todd Blanche confirmou que o Departamento de Estado reteve alguns arquivos, com base em privilégios legais, mas garantiu que o Congresso receberá um relatório com um resumo de todos os documentos retidos, o que é exigido por lei.
Ilha das taras
Em sua ilha, Epstein oferecia às menores e jovens dinheiro, promessas profissionais e acesso aos círculos de poder em troca de “favores” e convívio com os frequentadores. Um mundo em que as taras de seus convidados ilustres atropelavam os mínimos direitos, no qual podiam exercer toda a brutalidade impunemente.
Depois de preferir o silêncio durante anos, a brasileira Marina Lacerda veio a público e confirmou ter sido uma das vítimas de abuso sexual de Epstein, relatando ter sido abordada na adolescência.
Cerca de 50 brasileiras entre 11 e 15 anos teriam passado pelas propriedades de Epstein, muitas delas aliciadas através de promessas de trabalho em situações vulneráveis. A investigação sobre as identidades segue sob sigilo para proteger as vítimas.

Bolsonaro
Nos arquivos revelados em 31/1, o Departamento de Justiça dos EUA também há referências de conversas entre Epstein e Steve Bannon, ex-assessor de Trump e ideólogo da extrema-direita. O nome do ex-presidente Jair Bolsonaro é citado nos arquivos em 74 documentos.
Num deles, em troca de conversas telefônicas, Bannon confirma que teria sido contactado para orientar a campanha eleitoral presidencial de 2018 no Brasil. No diálogo com Epstein ele afirma: “Tenho que manter essa coisa do Jair nos bastidores”.
Entre a troca de mensagens, num diálogo com o ex-assessor de Trump, Epstein teria dito que “Bolsonaro é um divisor de águas. Sem refugiados querendo entrar. Sem Bruxelas dizendo a ele o que fazer. Ele só tem de reiniciar a economia. Gigante. 1,8 trilhão PIB”. Bannon respondeu: “Eu sou muito, muito próximo desses caras — eles me querem como conselheiro. Devo fazer isso?”.
Mais riqueza, mais pobreza
Pelos documentos que vieram a público do caso Epstein e o relatório da Oxfam, a burguesia fez do planeta uma “ilha da fantasia”, um mundo só seu em que não há qualquer respeito pela vida, pela democracia e sequer por crianças e adolescentes.
Durante o Fórum Mundial de Davos de 2025 (Suíça), evento anual que reúne a nata do empresariado, financistas e os políticos mais influentes, a Oxfam divulgou dados assustadores sobre a concentração de riqueza no mundo e sua repercussão para o aumento da pobreza e os ataques à democracia, numa clara referência ao crescimento de regimes autoritários no mundo.
Trata-se do relatório “Resistindo ao domínio dos ricos”. Nele, a organização internacional revela que a riqueza coletiva dos bilionários cresceu 2,5 trilhões de dólares em 2025, alcançando 18,3 trilhões de dólares, o maior valor já registrado. Esse crescimento foi três vezes mais rápido do que a média dos últimos cinco anos. Já o número de bilionários ultrapassou 3.000 pessoas pela primeira vez.
Desigualdade e ameaça à democracia
“Bilionários têm 4.000 vezes mais probabilidade de ocupar cargos políticos do que cidadãos comuns” e “países altamente desiguais apresentam sete vezes mais risco de retrocessos democráticos”, são alguns dos alertas que constam das conclusões do relatório da Oxfam.
Em 2025 os 10% mais ricos detêm 75% de todo o patrimônio global, enquanto a metade mais pobre da população fica com apenas 2%. Esses dados fazem parte da terceira edição do Relatório Mundial sobre a Desigualdade 2026, produzido pela rede World Inequality Lab e coordenado pelo economista francês Thomas Piketty.
Segundo este relatório, que confirma o levantamento da Oxfam, se o critério de análise for renda, os 10% mais ricos ficam com 53% da renda mundial, enquanto os 50% mais pobres recebem apenas 8%.
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações da Oxfam Brasil, ICL Notícias, Agência Brasil, Brasil de Fato e The New York Times.
(*) O título da matéria refere-se ao filme do cineasta francês Luis Buñel “O discreto charme da burguesia”, de 1972.



