Tarifaço de Trump: libertação ou recessão?

Por Henrique Acker   –   O presidente Donald Trump anunciou em 2 de abril uma taxação de 10% sobre os produtos importados pelos EUA de todos os países, a partir de 5 de abril. Em 9 de abril passam a vigorar as taxas específicas para 60 países, variando de 34% (China) a 10% (Brasil e Chile). Todos os automóveis produzidos fora dos EUA, além do aço e do alumínio, foram taxados em 25%.

Nem mesmo os aliados históricos escaparam do tarifaço de Trump. Para entrar nos EUA, os produtos da União Europeia terão que pagar 20%. Japão (24%), Coréia do Sul (25%) e Taiwan (32%) também vão sofrer com as novas taxas. Israel vai ter seus produtos taxados em 17% nos EUA.

 

Democratas alertam para o perigo

De acordo com líderes do Partido Democrata dos EUA na Câmara e no Senado, as tarifas impostas farão do 2 de abril o dia da recessão. O próprio Trump reconhece essa possibilidade, mas assim mesmo anunciou as medidas com o “Dia da Libertação” dos EUA.

Para justificar as medidas, Trump usou forte retórica nacionalista. “Durante décadas, nosso país foi saqueado, violado e espoliado por nações próximas e distantes, tanto amigas quanto inimigas”, disse em seu discurso.

Economistas do mundo todo alertam que o primeiro a ser atingido pelas medidas será o consumidor estadunidense. Na lógica do sistema capitalista, qualquer fator que incide sobre o valor das mercadorias é repassado ao seu preço final. Isso representa o aumento do custo de vida, ou seja, inflação.

Numa economia mundial já em dificuldade, com crescimento baixo ou negativo, o aumento da inflação pode redundar em queda do consumo e recessão. E uma recessão fatalmente gera quebra de empresas e desemprego.

 

União Europeia pretende retaliar

As lideranças da União Europeia (UE) mostram-se preocupadas com as medidas adotadas pela Casa Branca. Nos bastidores, já se considera a possibilidade da UE acionar o mecanismo de anti-coerção, criado em 2023, para combater as ameaças econômicas e as restrições comerciais desleais de países terceiros.

Este instrumento permite à Comissão Europeia lançar medidas de restrição do comércio, investimento e financiamento contra países que não pertençam à UE. Não se descarta a possibilidade de travar o comércio de empresas tecnológicas estadunidenses com o bloco europeu.

No entanto, há quem seja mais prudente. “Uma pequena retaliação pode provocar um ataque desproporcional. Atacar as tecnológicas que são os grandes financiadores do Trump é mil vezes pior”, alerta Pedro Braz Teixeira, diretor do gabinete de Estudos do Fórum para a Competitividade, de Portugal.

 

“Bullying” econômico

Em anúncio feito na manhã de 3 de abril, o porta-voz do Ministério do Comércio chinês descreveu a ação de Donald Trump como “prática típica de bullying unilateral”. He Yadong declarou que “não há vencedores numa guerra comercial”.

Já o Fundo Monetário Internacional alertou, em seu último relatório, que guerras comerciais podem reduzir o crescimento econômico mundial em até 0,5% nos próximos dois anos.

O governo brasileiro lamentou a tarifa adicional de 10% sobre os produtos importados do Brasil, acrescentando que avalia as possibilidades de resposta, incluindo um recurso à Organização Mundial de Comércio (OMC).

Apesar dos mercados financeiros internacionais estarem operando em baixa, em função das taxações do governo dos EUA, no Brasil a Bolsa de Valores deu sinais de recuperação e o dólar se manteve estável na manhã do dia seguinte ao anúncio de Trump.

Analistas do mercado consideram que a taxação de 10% imposta a produtos brasileiros pode não representar graves consequências para a economia do país.

 

Moeda de transação

As medidas adotadas por Donald Trump são respaldadas pelo fato do dólar ser adotado como moeda de transações internacionais desde 1944.

O dólar americano continua sendo a grande referência de reserva de valor do planeta e segue responsável por mais de 80% das transações globais. Depois da pandemia, o BC americano dobrou sua base monetária de US$ 3,5 trilhões para mais de US$ 7 trilhões.

Os juros praticados no mercado dos EUA são uma atração a mais para os grandes investidores. Outro grande privilégio é que os EUA não enfrentam uma crise de balanço de pagamentos porque suas importações são pagas em sua própria moeda.

Entre outros privilégios, os EUA têm o direito de penalizar países e adversários políticos, congelando ativos e contas bancárias que movimentam o dólar no mercado internacional.

O governo dos EUA faz isso congelando o uso do sistema Swift (Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais), principal rede de pagamentos globais, que conecta 11 mil instituições financeiras em mais de 200 países.

É por este motivo que os países do BRICS ponderam a criação de uma nova moeda de troca no comércio internacional, que fuja do controle de bancos e instituições financeiras dos EUA e seus maiores aliados.

 

Por Henrique Acker (correspondente internacional)

 

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Fontes:

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