Senado propõe diálogo com Senado dos EUA para conter tarifaço/Trump

O tarifaço de 50% anunciado pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deflagrou, nesta terça-feira (15), um debate revelador na Comissão de Relações Exteriores (CRE) do Senado. Em audiência com embaixadores, representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI), da Associação Brasileira dos Importadores (ABI) e parlamentares da base e da oposição, o que se viu foi mais do que uma indignação protocolar: emergiu a percepção de que o Brasil encara uma mudança de eixo na política externa norte-americana — e está mal preparado para reagir com estratégia.

O embaixador Felipe de Araújo França Fox foi direto: a sobretaxa não é um gesto isolado de Donald Trump, mas parte de uma reorientação geopolítica profunda, centrada na reconstrução da indústria doméstica americana. “A tarifa é o sintoma. O diagnóstico é mais profundo: o Brasil precisa decidir se quer ser protagonista nas relações internacionais ou apenas um coadjuvante barulhento”, disse.

Representantes da CNI, como Jefferson Oliveira, chamaram atenção para os efeitos práticos do tarifaço sobre setores estratégicos ,  madeira, aço e automóveis, com impactos concentrados no Sul e no Sudeste. Empresas como a Fundição Tupy, altamente integradas às cadeias norte-americanas, correm risco de colapso em caso de retaliação.

Juliano Platini, da Associação Brasileira dos Importadores, apontou que qualquer reciprocidade tarifária pode sair pela culatra: como boa parte da indústria brasileira depende de insumos importados, a retaliação pode se traduzir em recessão silenciosa. A crise, aliás, já se manifesta: navios parados por mais de 20 dias em portos brasileiros denunciam gargalos logísticos e a paralisia da Receita Federal.

O representante do Ministério da Agricultura tentou exibir uma face otimista: mencionou a abertura de 393 novos mercados para produtos brasileiros, incluindo 19 para carne bovina , o mais recente, o Vietnã. Mas não respondeu à questão central: como o Brasil reagirá ao novo protecionismo americano, que já afeta exportações de café, suco de laranja, couro e carne.

Entre os senadores, o general Hamilton Mourão (Republicanos-RS) propôs uma reação institucional e ponderada: a criação de um grupo de trabalho com interlocução direta com o Senado americano, em Washington. “Trump governa pelo mingau quente: queima em volta, esfria no centro”, disse. A ideia é buscar “neutralidade tática” — uma tentativa de ganhar tempo em um tabuleiro onde quem tem déficit dita as regras, e quem exporta corre atrás.

 

Embaixador Felipe Fox para assuntos bilaterais

 

A proposta de contato direto com a Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA foi encampada por outros senadores ao final da audiência, na tentativa de abrir um canal político que anteceda a entrada em vigor das medidas, prevista para as próximas semanas. Trata-se da primeira ação concreta discutida no Congresso para tentar conter os efeitos do tarifaço.

Mas houve também autocrítica. O senador Carlos Viana (Podemos-MG) culpou a guinada ideológica da diplomacia brasileira, especialmente a aproximação com regimes como o Irã, por enfraquecer as pontes com o Ocidente. “O Brasil escolheu o lado errado”, disse. Segundo ele, a indústria aeronáutica nacional uma das joias da economia, está sob risco direto de sofrer sanções, com perda imediata de até 100 mil empregos. Sobrou até para o ex-chanceler Celso Amorim, acusado de ter “jogado o Brasil no limo”.

No fim, o que o debate na CRE escancarou foi a assimetria não apenas econômica, mas institucional: os Estados Unidos agem com estratégia; o Brasil, com improviso. E quem paga o preço são os empregos, a produção e a credibilidade do país no cenário global.

No final da audiência, o vice-presidente, Geraldo Alckmin ligou para um dos senadores adiantando que já está em diálogo com os Estados Unidos. (Fotos: OP)

 

Reportagem Opinião em Pauta

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