Sem vida comunitária não há identidade social nem Carnaval

Henrique Acker  –   A efervescência que produziu toda a riqueza de fenômenos que foram se sucedendo no Carnaval do Rio ao longo do século XX se justifica por uma mesma matriz, que também está presente em toda a sociedade: a existência de uma vida comunitária rica, que foi se perdendo e praticamente desapareceu na virada do milênio.

O Carnaval carioca é fruto de uma série de fenômenos. Dos entrudos de origem lusitana aos corsos; das grandes sociedades aos ranchos; dos primeiros blocos das favelas às escolas de samba; dos concursos de marchinhas aos bailes dos clubes; dos blocos de embalo aos blocos de bairros da classe média.

É evidente que todas essas manifestações surgidas no Carnaval carioca e que redundaram em diferentes agrupamentos em etapas distintas só foram possíveis graças à existência de uma convivência nos bairros, nas favelas, nas escolas, nas vilas, nos bares, nos clubes e nas ruas.

A existência de um convívio de amigos e vizinhos foi o elo de ligação que permitiu reunir as pessoas em torno de interesses comuns, fosse para conversar, cantar, encontrar os amigos, jogar, etc. Dali, a partir de coincidências de interesses, surgia sempre a ideia de criar uma ou mais formas de manifestação cultural, esportiva ou lúdica.

 

Individualidade x comunidade

Há diversos elementos que concorreram para o desmonte da vida comunitária numa cidade como o Rio de Janeiro e outras grandes metrópoles no Brasil e no mundo no século XXI. Um deles é o universo da internet, que vicia as pessoas e consome muito mais horas do que outros hábitos.

O outro é simplesmente o avanço do isolamento produtivo, do trabalho a partir de casa e do computador nas bancadas das empresas. O trabalho – além de parcelado e individualizado na frente de uma tela de computador – não oferece o contato humano permanente, porque as tarefas são ditadas pelo ritmo do programa de produção. Portanto, não há uma identidade no fazer comum, no produzir.

No caso do Rio, o samba e todas as manifestações sociais e religiosas de matriz africana vêm sendo segregadas e empurradas para a marginalidade mesmo nas favelas e bairros populares, onde sempre tiveram força, a partir do avanço das seitas neopentecostais.

Mas há também um isolamento urbano paisagístico, que reúne as pessoas para consumir grandes eventos musicais e esportivos, mas as afasta do fazer comunitário. Os vizinhos podem se ver esporadicamente nas áreas de lazer e convívio dos condomínios fechados de classe média, mas raramente conseguem produzir amizades e laços mais profundos.

As praças são cada vez mais raras e cercadas, sem vida. Não há espaços de troca entre as pessoas, nos quais elas possam descobrir interesses comuns e manifestar a vontade de apresentar seus conhecimentos e dons culturais aos demais.

As compras são realizadas por internet, com a participação de entregadores, o que desobriga parcela dos consumidores de sair de suas casas e observar o mundo que os cerca.

 

Carnaval do “mercado”

A transformação do Carnaval de manifestação cultural popular em mais um produto de mercado engendrou uma série de mudanças e adaptações nas mais diversas formas de brincar o Carnaval.

A maior delas veio da padronização de desfiles das escolas de samba, de forma a atender aos interesses do mercado publicitário e da TV, desde o tempo de desfile até os quesitos de julgamento, que privilegiam a estética televisiva.

Nas ruas, os blocos foram se tornando reféns das cervejarias, de maneira planejada ou pela distribuição via enxames de ambulantes, licenciados ou não.

A música é cada vez mais eletrônica, com uma batida massacrante, sem riqueza melódica e com letras medíocres. Há uma pasteurização, uma padronização provocada pela apropriação da indústria cultural. E agora ainda mais com a Inteligência Artificial e programas de computador.

Há também um afastamento das pessoas de suas próprias origens, dos bairros e comunidades em que foram criados seus avós, pais e suas próprias famílias. Hoje, a mudança domiciliar é muito mais rápida e comum, não se cria raízes num local, bairro ou numa mesma rua.

Das antigas vilas resta muito pouco. O que prevalece são os condomínios fechados, que oferecem serviços e matam cada vez mais o que ainda existe de vida nos clubes associativos.

As tradicionais organizações culturais e esportivas guardam apenas fragmentos de suas origens e histórias. As escolas de samba constroem e mantêm suas quadras longe das favelas em que foram fundadas, o que dificulta a frequência dos moradores de suas comunidades originais.

Os clubes de futebol estampam em suas camisas (às vezes nem isso) apenas suas cores originais, perdidas entre anúncios de inúmeros patrocinadores. São caricaturas do que seus antepassados construíram, comandados por megaempresários e investidores. Não se formam mais ídolos, identificados com clubes.

Os blocos de bairros, que ressurgiram com força nos anos 80 com o retorno da classe média ao Carnaval de rua do Rio, nasceram do encontro de pessoas comuns que se reuniam para jogar bola, tomar cerveja, bater papo e cantar em campos, bares e praças. Muitos retomaram a sátira política, marca dos carnavais do início do século XX.

Com raras exceções, isso se perdeu na virada do milênio. Não houve renovação das gerações de organizadores, a cervejaria patrocinadora cobre as despesas com os desfiles, exigindo em troca a fidelidade da propaganda e da venda de seus produtos.

 

Praga de gafanhoto

O que se percebe hoje no Rio é a apropriação do Carnaval de rua por marcas de cerveja, em acordo com a TV e o poder público. O mais dramático é constatar que os mais pobres não participam da festa. No máximo, os que vão para a rua como ambulantes aproveitam a ocasião para vender bebidas, churrasquinho e faturar um trocado no entorno da festa que outrora foi sua.

O Carnaval de rua do Rio é vendido pelas agências de turismo. O espaço público (ruas, avenidas, praças, etc) é tomado pela iniciativa privada e parceiros da Prefeitura. Os blocos de celebridades e youtubers – outra invenção dos patrocinadores – reúnem centenas de milhares de pessoas, simplesmente para demonstrar o fenômeno das multidões em movimento.

As músicas tocadas são repetidas, sempre as mesmas. Faz tempo que não se realiza e nem se divulga os concursos de marchinhas de Carnaval, um gênero musical em extinção. Há um nítido esvaziamento da presença do folião e do sambista.

Alguns blocos já começam a abandonar os desfiles, por não terem estrutura para suportar o gigantismo que os tragou. Em alguns casos, desfilar virou uma tarefa perigosa.

 

Poder público, patrocinadores e consumo

A prefeitura do Rio se orgulha em divulgar que cerca de oito milhões de pessoas passaram o Carnaval de 2026 na cidade. Mas não preparou a municipalidade para os efeitos disso.

Receber dois milhões de turistas na cidade em uma semana requer reforço dos serviços de limpeza e saúde, vigilância e estrutura para o abastecimento de água e energia, além do aumento dos serviços de transportes públicos.

O resultado do Carnaval de rua 2026 foi o que se viu pelo Centro e Zona Sul da cidade: sujeira, falta de água e de luz e transportes entupidos. E o mais grave, um amontoado de acontecimentos destituídos de genuinidade e sem legitimidade.

Nos blocos – os mais conhecidos ou os cogumelos (surgem do nada) – o que se viu foi o gigantismo, que impedia o desenvolvimento dos desfiles, assim como situações de perigo iminente, como ocorreu em Santa Teresa na tentativa de desfile do Bloco das Carmelitas.

O que há nas ruas é uma massa humana de turistas nacionais e estrangeiros, movendo-se como praga de gafanhotos atrás de diversão fugaz. Produto de um “turistismo” de consumo.

Essa massa humana de jovens de classe média é fruto de uma vida sem convivência em comunidade, o que agrava a situação. Não há nenhuma identidade, respeito pelos blocos e pela cidade. É impossível aos componentes evoluir, pressionados por uma massa gigantesca de consumidores de Carnaval.

Por sua vez, a Prefeitura fez vista grossa no ordenamento do trabalho da camelotagem e suas barracas móveis. Provavelmente porque, mesmo prejudicando o espetáculo, o enxame de ambulantes é também uma forma de escoamento da produção das cervejarias, as maiores patrocinadoras do espetáculo. (Foto: Reprodução)

Por Henrique Acker (jornalista, colunista, ritmista e folião)

Relacionados

plugins premium WordPress