Lucro para poucos, festa para turistas e a conta para a população
Henrique Acker – O Carnaval do Rio ainda não acabou, mas as previsões de movimentação econômica para a cidade e arrecadação de impostos com a festa são otimistas. Segundo a publicação oficial Carnaval de Dados, o cálculo é que a festa traga R$ 5,9 bilhões para a economia da cidade e a arrecadação municipal chegue a R$ 240 milhões, só com ISS.
Os principais patrocinadores do Carnaval de rua de 2026 são a iFood, Ambev (cervejas) e Airbnb. Os maiores parceiros da festa são Mercado Pago, Águas do Rio e a TV Globo, que detém os direitos de transmissão dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial e conta com cotas de patrocínio de marcas como Brahma, Superbet, 99 e Mercado Pago.
Neste ano, a Globo disponibilizou sete cotas comerciais para publicidade, de abrangência regional e nacional. Cada uma delas inclui a exibição na TV aberta, canais pagos de TV, portais e outros formatos digitais. Segundo as tabelas comerciais divulgadas pelo portal Meio & Mensagem, a empresa pode lucrar até R$ 170 milhões nessa “brincadeira”.
“De dia falta água, de noite falta luz”
Por esses dados, é possível compreender o que se passa na cidade durante o Carnaval. Além de problemas com o abastecimento de água e de energia em diversos bairros, que evidenciam a falta de infraestrutura e de cobrança do poder público sobre as concessionárias de serviços essenciais (Light e Águas do Rio), pode-se perceber por que a cidade está largada ao improviso.
A sobrecarga de energia nos bairros com maior concentração de turistas (Copacabana e Leblon, etc), também atinge outras localidades concorridas, como Santa Teresa. Nesses lugares, o efeito predatório do aluguel de imóveis para a festa é evidente.
Os moradores de edifícios residenciais são afetados pela barulheira sem horário dos acampamentos montados em apartamentos alugados via plataformas de internet, como a Airbnb, patrocinadora do Carnaval. Os equipamentos, como elevadores, portões elétricos e outros, também são danificados pelo uso intenso.
Na Zona Sul, a Light apela para geradores caros e barulhentos, mas em outros bairros do Rio e Grande Rio, os moradores chegaram a ficar até seis a doze horas sem energia elétrica.
Um problema estrutural que leva a rompimentos de dutos da Cedae na adutora de Guandu já havia afetado o abastecimento de água em 7 de fevereiro, atingindo cerca de 10 milhões de moradores do Rio e Grande Rio.
O problema se mantém, porque não há mais investimento público no sistema. Também não há qualquer compromisso da Águas do Rio, que opera apenas como empresa de distribuição e arrecadação do serviço na capital. A mesma empresa “parceira” do Carnaval.
Liberou geral
Nas ruas, o que se assiste é um festival de absurdos. Este ano, a Prefeitura não interferiu na organização dos trajetos anunciados pelos blocos. Em muitos desfiles, como o do Bloco das Carmelitas (Santa Teresa), não havia pessoal para evitar o enxame de ambulantes que impediu o desfile da agremiação. Alguns blocos conhecidos já deixaram ou pretendem parar de desfilar.
Motoqueiros entregadores das plataformas digitais, entre elas a iFood e 99, juntam-se a ambulantes, que se concentram nos desfiles de blocos com carros, reboques e triciclos, prejudicando a circulação dos próprios foliões e da população em geral. Muitos dormem nas ruas para assegurar o “ponto” e estacionam seus equipamentos em qualquer lugar.
O estranho é que a habitual truculência da Guarda Municipal contra os camelôs foi deixada de lado. Afinal, eles vendem a mercadoria de um dos mais importantes patrocinadores do Carnaval de rua.
PM e Guarda Municipal estão ausentes. Não há sequer um sistema de apoio para os desfiles e liberação do trânsito. Os blocos “cogumelo” – que brotam do nada – são inflados pela Internet causando confusão e transtornos para os moradores dos bairros por onde passam.
O abastecimento de bebidas – principalmente cervejas e refrigerantes – não custa absolutamente nada às fabricantes e patrocinadoras do evento. As despesas com transporte, gelo e armazenamento das mercadorias são por conta dos próprios ambulantes, que no máximo recebem um guarda-sol para fazer propaganda de cerveja.
Os foliões ainda podem pagar o que consomem pelas maquininhas, inclusive as do banco digital que também é “parceiro” do Carnaval.
Segue o baile
Apesar dos transtornos causados pela verdadeira praga de gafanhotos que invade e provoca o gigantismo dos blocos, o único serviço que parece ativo nas ruas é o da coleta de lixo da Comlurb, empresa municipal de limpeza urbana.
Ainda assim, nem sempre as equipes da Comlurb conseguem dar vazão ao serviço. É difícil manter as ruas sem o mau cheiro e a sujeira provocados pelo inchaço descontrolado dos foliões de ocasião.
As autoridades? Elas podem ser encontradas nos camarotes da Sapucaí ou em eventos vip programados para celebridades, empresários e artistas. O Carnaval do Rio é só o auge da privatização e da terceirização geral da cidade pelo poder público. Segue o baile. (Foto: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações da Prefeitura do Rio, Meio e Mensagem, G1 e portal Temporealrj



