Henrique Acker – Cerca de quatro milhões de pessoas viviam em áreas controladas ou sob influência de grupos armados na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ) em 2024. É o que demonstra a versão atualizada do Mapa Histórico dos Grupos Armados, trabalho realizado pelas duas organizações desde 2018. O trabalho é uma parceria entre o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF) e o Instituto Fogo Cruzado (IFC).
Em dezoito anos (2007 a 2024) a área submetida a algum tipo de domínio armado cresceu 130,4% nessa região, enquanto a população submetida a essa condição aumentou 59,4%. Pelo mapa, 14% da superfície urbanizada da RMRJ e 29,7% da população se encontravam sob controle direto de grupos armados em 2024, enquanto outros 4,1% do território e 5,3% dos moradores viviam sob influência.
O lançamento da atual versão do Mapa coincide com operações conduzidas pelo Ministério Público e a Polícia Federal, que escancaram a ligação entre parlamentares e grupos criminosos no Rio. Primeiro, com a detenção do deputado TH Joias (MDB) – por negociar armas com o Comando Vermelho – e agora com a prisão do presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar (PL), que teria informado TH Joias da operação policial.
Mapa destaca avanço da disputa entre grupos
“Através das categorias de controle e influência e colonização e conquista conseguimos identificar padrões muito mais precisos, definidos e robustos de atuação de cada grupo armado e em diferentes circunscrições geográficas”, conclui Daniel Hirata, coordenador do GENI/UFF.
A área dominada por grupos armados quase dobrou, com uma alta de 98,4% no controle e de 420,1% na influência. Já a população sob controle ou influência saltou 59,4%, com destaque para a expansão da influência populacional, que cresceu mais de três vezes desde 2007. A “colonização” de territórios vazios sai de cena, dando lugar à “conquista” violenta pelas áreas já ocupadas.
As milícias eram, em 2024, o grupo com maior participação: 49,4% de toda a área sob domínio armado, o equivalente a 201 km². Mas quando o critério é o controle consolidado, o Comando Vermelho (CV) ocupa o primeiro lugar, com 47,5% dos territórios controlados, ou 150 km². Há ainda a presença em algumas áreas do Terceiro Comando da Capital (TCP), que inicia um avanço em outros estados, e dos Amigos dos Amigos (ADA), um grupo regional.
“O que observamos é a expansão das disputas violentas pelo controle urbano, que mobiliza mercados ilegais de drogas, armas, serviços e domínio territorial com cobrança de taxas. Essa dinâmica envolve também corrupção de instituições públicas, é claro.” É o que explica Cecília Oliveira, diretora-executiva do Instituto Fogo Cruzado, em declaração ao portal ICL Notícias.
Terceirização do território
De acordo com a estudiosa do assunto, professora Jaqueline Muniz, ao contrário do que se imagina e se repete na mídia empresarial, “o crime organizado no Rio de Janeiro é resultado direto da atuação do Estado e não da sua ausência”.
Muniz defende que não existe domínio territorial por grupos criminosos no Rio e em S. Paulo. Segundo ela, o que há é uma espécie de terceirização do território para esses grupos por parte do Estado.
“No Rio você tem vários grupos políticos que disputam territórios, campos de influência eleitoreira, currais eleitorais, desde o Estado Novo para cá. Quem organizou o tráfico de drogas no Rio pagou pedágio para o jogo do bicho, os de território e consorciados com atores estatais desde a década de 1940.”
Como a política paulista tem grupos políticos que mantêm uma coesão interna há décadas, o crime também se organizou dessa maneira, diz Muniz. “Em São Paulo você tem unidade de propósitos, em termos políticos eleitoreiros e tem unidade no crime.”
“A polícia de São Paulo entra e sai de qualquer lugar e a polícia do Rio entra e sai de qualquer lugar há 40 anos. Já entrou mil vezes no Alemão, já saiu. A presença do Estado é negociada”, diz Muniz. “Faz-se a guerra para vender a paz da propina, a paz do arrego.”
Um cruzamento de dados dos resultados eleitorais na Região Metropolitana do Rio indica que o ex-presidente Jair Bolsonaro obteve 53% dos votos em áreas com forte presença de milícias na eleição de 2022.
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do Instituto Fogo Cruzado, ICL Notícias, G1, Estadão e Jornal de Brasília.
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Mais detalhes do Mapa Histórico dos Grupos Armados no Rio podem ser obtidos NESTE LINK.



