Henrique Acker – A grande massa dos trabalhadores brasileiros (68%) recebia até dois salários-mínimos em 2022. Mais de um terço (35,3%) dos que trabalhavam ganhavam até um salário-mínimo. Uma parte bem menor da classe trabalhadora brasileira (14,2%) sobrevivia com dois a três salários-mínimos por mês. Sete em cada dez trabalhadores brasileiros recebiam, no máximo, dois salários mínimos.
Esses dados constam dos Resultados preliminares sobre Trabalho e Rendimento da população brasileira, com base no Censo Demográfico 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística nesta quinta-feira, 9 de outubro.
As informações tomam como base a População Economicamente Ativa (PEA), em condições de trabalhar. Naquele ano, a PEA do Brasil era de 108,1 milhões de pessoas, das quais 99,8 milhões estavam ocupadas e 8,3 milhões desocupadas.
Classe média empobrecida
Numa leitura simplificada dos números do IBGE, a chamada “classe média baixa”, que recebe entre 3 e 5 salários mínimos, era formada por 10,1% dos que trabalhavam. Já a classe média “média” representava 5,1% do mercado de trabalho, com rendimentos de 5 a 10 salários mínimos.
A classe média “alta”, com rendimentos entre 10 a 20 salários-mínimos/mês, estava representada por apenas 1,9% do mercado de trabalho do país.
Os ricos, que recebem mensalmente mais de 20 salários-mínimos, representavam 0,7% do mercado de trabalho brasileiro.
Formação baixa
O percentual de pessoas ocupadas na população de 14 anos ou mais de idade alcançou 53,5% no País, em 2022. No que diz respeito a sexo, O Censo de 2022 levantou que 62,9% dos que trabalhavam eram homens e 44,9% mulheres.
Enquanto 28,9% das mulheres ocupadas possuíam o nível superior completo, para os homens este percentual alcançava 17,3%. Por outro lado, 43,8% dos homens ocupados não tinham o ensino médio completo, enquanto para o caso das mulheres, este percentual era de 29,7%.
Apenas 22,4% dos brasileiros que trabalhavam possuíam nível superior completo. Esse percentual caía drasticamente quando se verifica que somente 14,6% dos negros e 15,5% dos pardos que trabalhavam tinham formação de nível superior completo.

Crescimento da precarização
O mercado de trabalho por conta própria em 2022 representava 29,9% do total de pessoas em atividade laboral, sendo 22,5% entre as mulheres e 26,7% entre os homens.
No que diz respeito às relações de trabalho, 56,3% dos trabalhadores brasileiros no setor privado possuíam carteira de trabalho assinada em 2022, contra 18,5% sem carteira assinada. Servidores públicos estatutários (incluindo militares) eram 13,7%.
Rendimento familiar baixíssimo
O valor médio do rendimento familiar é obtido a partir da soma do valor do rendimento mensal de todas as fontes (trabalho, aposentadorias e pensões, benefícios de programas sociais etc.) de todas as pessoas que residem no domicílio, dividindo o total obtido pelo número de pessoas que nele residem.
Em 2022, o rendimento mensal domiciliar per capita médio da população foi de R$ 1.638. Os valores mais elevados estavam nas Regiões Sul (R$ 2.058), Centro Oeste (R$ 1.953) e Sudeste (R$ 1.910) e os menores nas Regiões Nordeste (R$ 1.072) e Norte (R$ 1.075).
O último Censo Demográfico leva em conta os dados de 2010 (Censo anterior) e 2022, porque a pesquisa foi suspensa em 2020 e adiada para dois anos depois, por absoluto caos provocado pela falta de verbas para sua realização, sob a administração Bolsonaro.
Mínimo congelado, ataques aos trabalhadores e aposentados
Os números assustadores sobre trabalho e renda no Brasil em 2022 certamente não tiveram alteração considerável nos últimos três anos. Mas são reveladores do que se passou no país entre agosto de 2016, início do Governo Temer, até meados de 2022, último ano do governo Bolsonaro, governos de direita e de extrema-direita.
Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu 1,1% em 2017 e 1,8% em 2018, a riqueza acumulada pelos bilionários brasileiros cresceu 3,6% entre 2016 e 2018, e a renda dos 10% mais ricos da população brasileira aumentou 4,1% em 2018, o rendimento dos 40% mais pobres caiu 0,8%, no último ano da Administração Temer.

No governo Bolsonaro, entre 2019 e 2022, o PIB brasileiro cresceu em média 1,14% (apesar da queda na pandemia). Dados da Receita Federal e do IBGE, mostram que entre janeiro de 2019 e dezembro 2021, 62,5 milhões de brasileiros empobreceram (29,5% da população) e boa parte mergulhou na miséria. No mesmo período, o número de milionários no Brasil chegou a 2,1 milhões de pessoas.
Vale lembrar que a inflação acumulada de 2016 a 2018 (Governo Temer) foi de 12,89% e a de 2019 a 2022 (Governo Bolsonaro) foi de 26,93%. No entanto, em seis anos consecutivos essas duas administrações não repuseram sequer o índice da inflação no reajuste anual do salário mínimo. Esse arrocho salarial também teve consequências sobre as aposentadorias e pensões.
Não se pode esquecer que Temer e Bolsonaro foram responsáveis por duas das mais profundas mudanças que atingiram em cheio a classe trabalhadora e os mais pobres: a reforma trabalhista, que destrui grande parte dos direitos do trabalhador, e a reforma da previdência, ampliando o tempo de contribuição e diminuindo a média do valor da aposentadoria a receber.
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações dos Resultados preliminares sobre Trabalho e Rendimento, divulgados pelo IBGE com base nos dados do Censo 2022. Os dados do Censo do IBGE consideram uma pesquisa sobre rendimento do trabalho realizada entre 25 e 31 de julho de 2022



