Portugal: 2º turno terá extrema direita e socialistas.

A chegada ao segundo turno da eleição presidencial em Portugal de Antonio José Seguro (Partido Socialista), com 31% dos votos, e de André Ventura (Chega! Extrema-direita) – foto acima – , que obteve 23,5% dos votos, cria um ambiente de incerteza política no país.

Há quem afirme que a moderação e o apelo ao voto útil de Seguro lhe garantiram a confiança do eleitorado progressista, que teme o avanço da extrema-direita, mesmo sem o apoio incisivo dos principais líderes de seu partido. Seguro já fala em conquistar os votos dos democratas.

Por sua vez, Ventura deve moderar o discurso agressivo para tentar conquistar o eleitorado de direita não extremado. Ele já se apresenta como o líder das direitas capaz de derrotar o “socialismo”.

Do ponto de vista das possibilidades de cada candidato, o mapa do resultado do primeiro turno é bem evidente. À esquerda restam os 4% de votos do Bloco de Esquerda e do PCP, e um setor mais esclarecido do eleitorado conservador que deve migrar para José Seguro.

Já André Ventura terá melhor condição de disputar os 16% dos votos de Cotrim de Figueiredo (Iniciativa Liberal), os 12,3% do Almirante Henrique Gouveia de Melo e os 11% de Luís Marques Mendes (identificado com o PSD), partido que comanda o atual governo no Parlamento. Todos esses candidatos receberam votos do segmento mais à direita do eleitorado português no primeiro turno.

Seguro é mais um moderado do PS, não deve alterar o rumo de sua conduta na campanha e de seu partido. Ventura quer ser primeiro-ministro, mas a Presidência pode lhe dar o palco que precisa para permanecer em evidência até as próximas eleições parlamentares. Além disso, o presidente pode dissolver o parlamento, ainda que em condições extremas e dentro de limites constitucionais.

Poucas horas depois da confirmação do resultado eleitoral, os demais candidatos deram pistas de como devem se portar no segundo turno. Gouveia de Melo não declarou apoio a nenhum dos dois candidatos. Marques Mendes, identificado com o PSD, também não revelou voto. Cotrim de Figueiredo criticou o PSD e não avançou sobre o que seu partido deve propor no segundo turno.

Seja como for, o resultado do primeiro turno já representa uma vitória para a extrema-direita. André Ventura quebrou a histórica polarização entre PSD e PS que vigorou na política portuguesa até aqui durante décadas. Se não vencer no segundo turno, sairá fortalecido desta eleição.

Para os imigrantes – entre eles os cerca de 500 mil brasileiros – o resultado do segundo turno preocupa e muito. Além das exigências legais aprovadas pelo atual governo do PSD, que tornam a permanência de estrangeiros cada vez mais difícil, e a inoperância proposital da AIMA em atendê-los, uma vitória de André Ventura o alçará à condição de porta-voz oficial da ofensiva contra os imigrantes que vivem no país.

“Vivemos um momento de mudanças na política de imigração e o risco é um endurecimento ainda maior. Além disso, há temor de um aumento da discriminação e xenofobia com a normalização do discurso contra estrangeiros na esfera pública.” É o que declarou à BBC News Ana Paula Costa, presidente da Casa do Brasil, a mais antiga associação de imigrantes brasileiros no país. (Fotos: Reprodução)

Por Henrique Acker (jornalista e colunista)

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