Partidos tradicionais perdem espaço na política brasileira

A um ano da sucessão presidencial, alguns partidos que já foram determinantes na política brasileira desde a redemocratização do país passam por um processo de esvaziamento e decadência.

Os casos mais emblemáticos são os do PSDB e do PDT, que vêm perdendo identidade, base eleitoral e expressão nacional nos últimos anos. O MDB, enraizado em municípios, ainda resiste, mas não disputa nada no cenário nacional e já é identificado como mais uma legenda do Centrão dentro do Congresso Nacional.

Em meio à polarização entre os que defendem o avanço da democracia e a extrema-direita bolsonarista, os espaços ao centro vão sendo ocupados pelo Centrão reciclado, que representa muito mais do que a velha política, mas também parte de uma nova burguesia mafiosa.

 

Ascensão e queda

O MDB, partido em que se encontraram velhos políticos numa frente de luta contra a ditadura e pela redemocratização do país, sofreu com as mortes de Ulisses Guimarães e Teotônio Villela. Dali em diante, não teve condições de apresentar um projeto próprio para o país.

O velho MDB deixou de ter expressão nacional também por conta da saída de seus principais quadros. FHC, Mário Covas, José Serra e Tasso Jereissati, Franco Montoro, Célio de Castro, Arthur da Távola e Afonso Arinos romperam com o partido e fundaram o PSDB em 1988.

A euforia dos tucanos, que elegeram FHC presidente por duas vezes, não durou muito. Mas o suficiente para implantar a receita neoliberal, com a privatização de grandes empresas estatais e estaduais, como no caso do governo de Marcello Alencar, no Rio.

Com a ascensão do neofascismo, a partir de meados da década passada, boa parte do eleitorado de classe média das grandes cidades se dividiu entre o voto no PT e a adesão ao bolsonarismo, esvaziando a força do PSDB.

O PDT perdeu a face combativa com a morte de sua principal liderança, Leonel Brizola. Até então, o partido disputava espaço com o PT na vida política nacional. Da primeira eleição de Lula (2002) em diante, o PDT foi sendo esvaziado pelo pragmatismo eleitoral e o afastamento de figuras históricas do trabalhismo, perdendo completamente sua identidade política.

 

Baixo clero

Os espaços que MDB, PSDB, PDT e suas lideranças ocupavam na esfera nacional deram lugar a uma política mais rasa e pragmática, que representa a nova realidade econômica e social do país, para além dos tradicionais currais eleitorais.

O que cresce na virada dos anos 2010 para cá são as legendas recicladas do antigo Centrão. O PP (50 deputados e 7 senadores), de Arthur Lira, Ciro Nogueira e Esperidião Amin, o União Brasil (59 deputados e 6 senadores), de Davi Alcolumbre, Luciano Bivar e Pauderney Avelino, e o Republicanos (45 deputados e 4 senadores), de Hugo Motta e Marcello Crivella são as bancadas de maior força na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

Essas três legendas expressam uma política que alia o velho pragmatismo do antigo Centrão – agarrado a cargos e verbas de ministérios em Brasília – mas também atrai um novo setor das classes dominantes no Brasil. Unido, o Centrão tem o poder de aprovar e rejeitar qualquer projeto no Congresso, mantendo a Presidência da República sob chantagem.

O antigo Centrão, que representava os interesses das velhas oligarquias e dos lobbies de grupos econômicos tradicionais dos maiores setores da economia formal, foi se adaptando aos novos tempos.

 

Cada vez mais máfias

Uma espécie de “burguesia mafiosa”, que mexe com negócios ilícitos (tráfico de drogas, armas, jogos de azar físicos e digitais, criptomoedas, exploração da fé, etc) emergiu a partir do início deste século, ocupando espaços em diversos setores da economia formal e, consequentemente, na política brasileira.

A pesquisa “Segurança Pública e Crime Organizado no Brasil”, divulgada este ano pela Esfera Brasil em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que as organizações criminosas podem faturar cerca de R$ 335 bilhões apenas com o fluxo ilegal de cocaína no Brasil, o equivalente a 4% do PIB do país.

Os partidos do Centrão passaram a abrigar representantes de negócios escusos dos chamados “novos ricos”, que enriqueceram em curto tempo, agarrados a contratos milionários de terceirização e prestação de serviços para prefeituras e governos estaduais.

Os antigos cabos eleitorais que lideravam os “currais” nas favelas e periferias das grandes cidades elegendo políticos tradicionais, passaram a ocupar, eles mesmos, as vagas de vereadores e deputados estaduais. O “agrado” ao eleitor, com tijolos e jogos de camisas de futebol, deu lugar a um esquema profissional de compra e venda de votos.

 

Grupos criminosos

Casos emblemáticos como o do ex-deputado estadual TH Jóias – ligado ao Comando Vermelho e empossado pela legenda do MDB – são cada vez mais comuns nas câmaras de vereadores e assembleias legislativas dos estados.

De acordo com um relatório, citado em matéria de março deste ano do colunista Vicente Nunes, do Correio Braziliense, a PF identificou a ligação de metade dos 71 deputados estaduais do Rio de Janeiro com grupos de traficantes e milícias no Estado.

Um levantamento da inteligência da PM confirmado pelo TRE de SP, aponta que pelo menos 70 candidaturas teriam sido apoiadas pelo PCC nas eleições municipais de 2024, só no estado de São Paulo. Dez vereadores e dois prefeitos desse grupo foram eleitos.

Em agosto de 2024, o chefe do centro de inteligência da Polícia Militar paulista, coronel Pedro Luís de Souza Lopes, afirmou durante o 18º encontro anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) nas eleições era “muito maior do que (se) imaginava”.

“Não dá para falar que são 100, 200 municípios, mas tem vários com indícios palpáveis de alguma movimentação importante do tráfico participar como financiador de campanha eleitoral”, afirmou o militar.

 

Pastores e milicianos

Da mesma forma, as seitas neopentecostais e as milícias estão presentes nas esferas parlamentares municipal, estadual e federal com pastores e policiais justiceiros. Daí vão se fortalecendo as bancadas da Bala, da Bíblia e das Bets.

Todos esses segmentos do crime organizado e dessa “burguesia mafiosa” optam por colocar seus porta-vozes na vida política institucional, por meio de partidos sem marcos ideológicos definidos. Em muitos casos, compram vagas de candidatos nas legendas menores e depois de eleitos migram para os maiores partidos.

O número de parlamentares e o total de votos obtidos são fundamentais para a definição do Fundo Eleitoral (de R$ 1 bi em 2055 para R$ 4,9 bi em 2026) e Fundo Partidário (R$ 573 mi divididos entre 19 partidos em 2025). O comércio partidário passou a ser uma realidade. (Foto: Reprodução)

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de congressonacional.leg.br, Esfera Brasil e CNN Brasil.

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