Henrique Acker – A Operação Carbono Oculto, desencadeada pela Polícia Federal em oito estados do país, trouxe à tona a relação íntima entre o mundo do crime organizado com engrenagens vitais do sistema econômico, financeiro e político no Brasil.
O que foi revelado não surpreende os analistas mais atentos, mas serve de alerta ao conjunto da sociedade. Se não houver uma intervenção urgente dos setores que defendem a democracia política, econômica e social, pelos meios legais disponíveis, a vida política deve se tornar muito mais dura e perigosa.
As atividades do PCC no ramo de combustíveis apontam para um esquema que opera em larga escala em toda a cadeia do negócio, na produção, adulteração e distribuição de combustíveis, com o suporte de uma lavanderia que atua livremente no mercado financeiro.
Esse esquema envolve a exportação de cocaína para a Europa, onde o PCC já está vinculado a outros grupos mafiosos. A polícia portuguesa já admite a presença de cerca de 1000 pessoas ligadas ao grupo criminoso naquele país.
Unha e carne
Há claros indícios de que o PCC financia partidos e campanhas de políticos do Centrão e da extrema-direita. A polícia de São Paulo já deixou esse alerta na campanha eleitoral municipal de 2024, quando entregou ao Tribunal Regional Eleitoral os nomes de 70 candidatos que teriam sido financiados pelo grupo, entre os quais 12 deles foram eleitos. Basta surgirem provas das evidências.
É de extrema gravidade a declaração à PF de uma testemunha de que o líder de um partido do Centrão teria recebido sacos de dinheiro de um emissário do PCC. Assim como é inaceitável que o líder de uma seita neopentecostal tenha aberto uma empresa com o sheik das criptomoedas, preso por ter dado prejuízo a 18 mil pessoas.
Não por acaso, são justamente esses segmentos os que mais operam num fio tênue entre a legalidade e a criminalidade na sociedade brasileira. São atividades que envolvem uso e abuso de recursos públicos, emendas parlamentares, lavagem de dinheiro, venda de armas, tráfico de drogas, exploração da fé, financiamento milionário de campanhas, jogos de azar, acordos com quadrilhas, formação de milícias, etc.

Seus porta-vozes já estão nas estruturas dos três poderes, barrando projetos, propondo leis e vendendo sentenças que facilitam a vida de seus patrocinadores no Congresso Nacional, em governos estaduais, municipais e em parte do Judiciário.
Atuam de forma agressiva na fabricação e difusão de notícias falsas, na intimidação daqueles que não se rendem ao fosso das desigualdades na sociedade brasileira. Seus interesses coincidem claramente com os da extrema-direita bolsonarista e o chamado Centrão, que apostam na impunidade e na lei do mais forte.
O melhor exemplo disso foi o estranho financiamento da campanha de desinformação de um deputado federal bolsonarista contra uma inexistente “taxação do pix”, no projeto do governo que pretendia regulamentar as operações financeiras dos bancos digitais.
Para um setor pragmático das classes dominantes, é perfeitamente possível conviver com essas máfias e seus negócios, desde que dentro da disputa político-eleitoral formal e do jogo do sistema financeiro.
Joio e trigo
Isso muda completamente a disputa política daqui por diante, não apenas nas próximas eleições (2026), dando outro caráter ao embate entre os que defendem a democracia e os que precisam de um regime fechado para impor negociatas sustentadas por máfias.
Será de extrema importância a atuação do Ministério Público e da Polícia Federal na abertura de inquéritos, investigação e desbaratamento dos esquemas criminosos, acobertados e financiados por estruturas aparentemente respeitáveis, como o mercado financeiro, seitas neopentecostais, setores das polícias e o agronegócio.
Papel relevante também caberá aos setores mais consequentes do jornalismo, reportando com coragem e independência os fatos que comprovam a cadeia de ilegalidade e cumplicidade que liga criminosos a grupos de interesses privados encrustados no Estado brasileiro.
O que está em jogo não é apenas mais um escândalo envolvendo grupos criminosos que produz manchetes. Mas toda uma cadeia econômica eivada de ilegalidades, que dá sustentação às máfias que operam no mercado financeiro e na vida política brasileira.
Essa gente atua abertamente contra a nossa tímida democracia, que ainda possui meios legais de frear e barrar suas operações criminosas e fraudulentas.
Ao contrário da receita autoritária do vale-tudo golpista do bolsonarismo e das máfias que o sustentam, o único caminho para assegurar os mínimos direitos já conquistados e ampliar os avanços econômicos, sociais e políticos para a maioria do povo brasileiro é ampliar a democracia, com transparência e melhoria dos serviços públicos.
Por Henrique Acker (jornalista e colunista)


