Os podres poderes do sistema financeiro  

Henrique Acker –  A crise provocada pelo escândalo do Banco Master já é uma das maiores envolvendo o sistema financeiro brasileiro, tem ramificações em diversas frentes e pode respingar em muita gente importante. Essa é a questão que gera tanta apreensão entre os operadores do mercado, banqueiros, políticos e a mídia empresarial.

Enquanto as demais instituições financeiras ofereciam de 10% a 12% aos compradores de Certificados de Depósitos Bancários (CDB), o Master prometia taxas de remuneração de até 40% sobre esses mesmos títulos.

Era uma crise anunciada de insolvência, uma situação insustentável, mas o Banco Central, sob a administração do bolsonarista Campos Neto, nada fez.

 

Farra dos juros

O dinheiro que circula no sistema financeiro é usado para a obtenção de juros, sem o que não haveria razão de existir do próprio sistema. É dos juros dessas operações que os bancos/financeiras retiram grande parte dos seus lucros.

Entre outras operações, as instituições bancárias captam recursos de seus clientes, oferecendo aplicações que rendem uma taxa mínima de juros, enquanto os bancos embolsam a maior parte do rendimento das aplicações.

Essas operações devem ser avalizadas pelo Banco Central, que é a autoridade monetária do país e determina a taxa básica de juros, hoje em 15% ao mês.

 

Ciranda financeira

O Master surge em 2021, da reestruturação do antigo Banco Máximo, e atua fundamentalmente com a transação de títulos no sistema financeiro. Mas o Master não opera sozinho, não sai oferecendo taxas de juros mais vantajosas no mercado sem o conhecimento das demais instituições e do próprio Banco Central.

Os títulos oferecidos pelo Master também eram negociados com intermediação de outras instituições, como o Nubank, o BTG e XP. Pelo que se sabe, esses três bancos colocaram R$ 60 bilhões destes títulos à venda, recebendo comissões de 4% sobre o valor negociado, cerca de R$ 2,4 bilhões limpos nessas operações.

Esses CDB são protegidos até o valor de R$ 250 mil pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Acontece que esse FGC também tem um limite e é bancado pelos maiores bancos que atuam no mercado, no caso, o Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica e Santander.

Os investidores do banco Master (cerca de 1,6 milhão) detêm R$ 41 bilhões em depósitos bancários (CDBs) e ainda esperam para ser ressarcidos. Esse montante representa um terço do caixa do Fundo Garantidor.

 

Igreja Lagoinha e bolsonaristas

Daniel Vorcaro, dono do Master, é ligado à Igreja Batista da Lagoinha. Ele recebeu de sua família o Banco Máximo e o transformou no Master.

Esta mesma Igreja possui uma Fintech, a Clava Forte Bank, também acusada de envolvimento no escândalo dos descontos indevidos de aposentadorias do INSS. Um dos frequentadores da Lagoinha é o deputado federal bolsonarista Nikolas Ferreira (PL/MG).

O empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e pastor da Igreja Lagoinha, foi um dos alvos da operação Complience Zero. Maior doador pessoa física das campanhas de Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões) e Jair Bolsonaro (R$ 3 milhões) em 2022, Zettel foi detido pela PF ao tentar sair do país.

Quando as fraudes foram detectadas, surgiu a articulação de políticos de direita para a compra do Banco Master pelo BRB, banco público do Distrito Federal. Em depoimento à Justiça, Vorcaro confirmou que teve encontros com o governador Ibaneis Rocha para tratar do assunto.

 

Manobras do centrão

A compra do Master pelo BRB foi abortada pela intervenção do Banco Central. No entanto, o prejuízo da aquisição de papéis podres do Master abriu um rombo de R$ 12 bilhões no BRB, que comprou cerca de 100 bilhões desses títulos.

Segundo o presidente do PSB do DF, Rodrigo Dias, quem articulou a autorização de compra do Master pelo BRB foi o próprio Ibaneis. Ele conseguiu a aprovação da operação em menos de 24 horas, com o voto dos 15 deputados distritais de sua base.

Já Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e ex-ministro de Bolsonaro, e Antonio Rueda (presidente nacional do União Brasil), ambos do centrão, também são apontados como articuladores da compra do Master pelo BRB.

Nogueira propôs a elevação do limite da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF. Por pressão política, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) chegou a aprovar a compra do Master pelo BRB, mas com o veto do Banco Central, a operação não se concretizou.

 

Conivência de Campos Neto

Enquanto o caso do Banco Master vai revelando novas ramificações todos os dias, a mídia empresarial parece estar mais preocupada em dar destaque a assuntos paralelos, tentando empurrar o escândalo para ministros do STF e figuras próximas ao governo Lula.

Um dos alvos é o Banco Central, tido como conivente com as fraudes praticadas pelo Master. Ocorre que o comando do Banco Central só foi alterado recentemente, com a saída de Campos Neto – que chegou no governo Jair Bolsonaro – e a posse de Gabriel Galípolo, indicado por Lula.

Durante o governo Bolsonaro, o Master saltou de R$ 3,7 bilhões em ativos em 2019 para R$ 82 bilhões em 2024, apoiado em papéis de alto risco, como precatórios. Documentos enviados ao TCU e revelados pelo jornal O Estado de S. Paulo, apontam que o Master tinha muita dívida para pagar e pouco dinheiro em caixa para honrar os compromissos.

O banco tentou levantar R$ 15 bilhões com investidores de longo prazo, mas conseguiu só R$ 2 bilhões. Coube a Gabriel Galípolo, já como novo presidente do BC indicado por Lula, decretar a liquidação em novembro de 2025.

 

BRB e Fundos de servidores

A repercussão dessas operações fraudulentas atinge em cheio os fundos de previdência de servidores públicos. No caso do Rio de Janeiro, o governo Cláudio Castro investiu cerca de R$ 980 milhões em CDB do Master, quando já se sabia no sistema financeiro que o banco era um mico.

O Rioprevidência continuou investindo em ativos ligados ao Banco Master mesmo após um alerta do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro) sobre os riscos destes aportes.

Ao todo, foram nove operações financeiras, realizadas entre novembro de 2023 e julho de 2024, que resultaram na aplicação de aproximadamente R$ 970 milhões de recursos do Rioprevidência em Letras Financeiras emitidas pelo Master.

Além do Rio, fundos de previdência de servidores do Amapá, do Amazonas e de 15 municípios aplicaram em títulos do Banco Master, totalizando R$ 1,5 bilhão. Todos os governadores e prefeitos envolvidos na compra de papéis do Master pertencem a partidos da extrema-direita e do centrão. O prejuízo pode recair sobre servidores públicos, contribuintes e beneficiários desses fundos.

 

Pressão sobre o STF

Outros alvos são os ministros do STF José Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, e o ex-ministro do STF e do governo Lula, Ricardo Lewandowski. A esposa de Moraes, advogada, teria um contrato milionário com o Banco Master, no entanto, ainda não se conhece o contrato.

Recentemente, Alexandre de Moraes desmentiu em nota que tenha se encontrado com o ex-presidente do BRB na casa de Daniel Vorcaro, no primeiro semestre do ano passado, como noticiou o portal Metrópoles.

Já o ministro Dias Toffoli, responsável pela investigação no STF, sofre pressão por ter pego carona num jatinho que conduziu o banqueiro e outras 15 pessoas ao jogo da decisão da Taça Libertadores, em Lima, no final do ano passado. A suspeição sobre Toffoli é alimentada pelo fato de seus irmãos terem vendido um resort para Vorcaro.

Se Toffoli abandonar a condução do caso pelo STF, a tendência é que o processo vá para a primeira instância do Judiciário, o que tiraria sua visibilidade e tornaria as investigações muito mais morosas.

 

CPI, CPMI e eleições

Pelo que se sabe, a grande fonte de informações que ofereceu munição para a jornalista Malu Gaspar (O Globo) veio do próprio sistema financeiro. Um dos nomes apontados é o de André Esteves, banqueiro e dono do BTG Pactual, que tinha interesse em ficar com o Banco Master e sempre teve bom trânsito institucional em Brasília.

Já existem quatro pedidos de CPI para a investigação do caso Master. E a possibilidade de um pedido de Comissão Parlamentar Mista da Câmara e do Senado. Até agora, tanto o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, quanto da Câmara, Hugo Motta, resistem a aceitar a instalação de uma comissão parlamentar para apurar o caso. Em ano eleitoral, todo cuidado é pouco.

Pelo tom do noticiário, parece evidente que parte da mídia empresarial tem interesse em deixar de lado a gravidade do escândalo, de consequências imprevisíveis, tentando dividir as responsabilidades entre os governos Bolsonaro e Lula.

Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do Correio Braziliense, BBC Brasil, Metrópoles, G1, UOL Notícias e CNN Brasil.

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