Clamores e desafios do povo Kayapó para garantir direitos básicos

A jornalista Bia Cardoso, do portal Opinião em Pauta,  conhecida pelo compromisso com os povos da Floresta, voltou sua atenção mais uma vez para as vozes dos Mebêngôkre, povo Kayapó. Sua mais recente incursão foi ouvir os clamores dos povos originários que enfrentam desafios cada vez mais intensos para garantir direitos básicos, como a educação.

Os entrevistados desta edição foram o líder indígena e professor Tumré e o cacique Bep Tussan. Bia escutou relatos de descaso com o modo de organização coletiva dos Kayapó. E o mais grave: a educação e a cultura dos Mebêngôkre estariam seriamente ameaçadas pela qualidade do ensino oferecido aos indígenas. Em Cumaru do Norte, o ano letivo ainda não começou para os estudantes indígenas.

Com uma população superior a 12 mil pessoas, os Kayapó, ou Mebêngôkre, residem e preservam uma vasta região da Floresta Amazônica várias décadas, abrangendo desde o norte do Mato Grosso até o sul do Pará.

Confira abaixo a entrevista que a jornalista (foto ) fez com as lideranças Kayapó.

Bia – Como o processo de colonização e o contato com povos não indígenas influenciam na qualidade da educação indígena em Cumaru do Norte?
Cacique Tumré – O contato dos povos indígenas de Cumaru do Norte, especialmente os Kayapó, com a sociedade não indígena se deu dentro de um contexto de colonização, marcado pela imposição de uma cultura dominante e pela tentativa de aculturação. Isso significou a perda de muitos aspectos culturais, incluindo a língua, os costumes e os modos de vida tradicionais.

A relação com a sociedade envolveu conflitos, violência e mortes, além da exploração dos territórios indígenas. Com o tempo, apesar da resistência dos povos indígenas, muitos aspectos da cultura tradicional foram afetados, e os Kayapó tiveram que lutar pela preservação de suas identidades.

No campo da educação, observa-se a falta de um departamento estruturado dentro da Secretaria de Educação de Cumaru do Norte para tratar especificamente das necessidades dos povos indígenas. Apesar do empenho de alguns professores, muitos não têm formação adequada para trabalhar com educação indígena, o que impacta negativamente a aprendizagem dos alunos Kayapó.

 

Bia – Hoje, qual é o principal desafio na luta pela melhoria da educação indígena?
Bep Tussan Kayapó – Os obstáculos são inúmeros. Na educação indígena, os problemas são estruturais e pedagógicos.

Faltam professores qualificados, especialmente aqueles que, além de possuírem conhecimento pedagógico, dominem a língua Mêbêngôkre, essencial para a aprendizagem dos alunos indígenas.

Além disso, a infraestrutura escolar apresenta problemas significativos: não é adequada, a água é de péssima qualidade e os banheiros são inadequados para uso. O acesso à internet também é precário, dificultando a comunicação.

Outro problema identificado é a carência de recursos tecnológicos, como data-shows e outros equipamentos necessários para aprimorar o ensino. Também há uma grande escassez de materiais didáticos na língua Mêbêngôkre, o que prejudica o aprendizado e a valorização da cultura indígena no ambiente escolar.

Essas dificuldades evidenciam a necessidade de investimentos urgentes para garantir uma educação de qualidade às comunidades indígenas de Cumaru do Norte, respeitando sua cultura e proporcionando melhores condições de aprendizado.

 

Diálogo sem resposta concreta com a Secretaria de Educação de Cumarú do Norte .

Bia – O currículo e a formação dos professores atendem às especificidades da educação indígena?
Bep Tussan Kayapó – O currículo escolar e a formação dos professores de Cumaru do Norte não atendem às especificidades da comunidade indígena. O ensino ofertado segue os moldes da educação tradicional colonizadora.

Esse formato tem se mostrado ineficiente, pois não reconhece os indígenas como protagonistas do seu próprio aprendizado. Além disso, não considera a realidade cultural, linguística e social da comunidade, deixando de incluir questões essenciais para o desenvolvimento educacional na aldeia.

Dessa forma, há a necessidade urgente de uma abordagem educacional que respeite e promova a cultura indígena, garantindo um ensino que fortaleça a identidade do povo e sua participação ativa no processo de aprendizagem.

 

Cacique Bep Tussan Kayapó (esquerda); e líder e professor Tumré Kayapó

 

Bia – O que é mais grave para os Kayapó quando se fala no futuro das crianças indígenas?
Bep Tussan Kayapó – Nada é mais grave do que o descaso com nossos estudantes. Isso fica claro quando tentam anular nosso direito à voz. Aqui em Cumaru do Norte, a Secretaria de Educação tem decidido tudo sozinha, sem nos consultar.

Ela trocou um professor nosso para colocar um de Conceição do Araguaia, que não tem nenhuma experiência com indígenas. Desde a colonização, vivemos isso. Eles não respeitam, violam nossos direitos. Eu sou grato só por estar sendo ouvido por você .

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