Ao final de 2025, a taxa anual de apenas 5,6% alcançará o menor patamar desde o início da série histórica, mesmo em um cenário de juros elevados, evidenciando transformações estruturais no mercado de trabalho.
O entregador de aplicativo no Rio de Janeiro simboliza o progresso do trabalho através de plataformas digitais, contribuindo para a diminuição do desemprego. No entanto, essa modalidade de emprego também intensifica a precariedade, a informalidade e a falta de segurança para milhões de profissionais no Brasil.
No Rio de Janeiro, os entregadores de aplicativos simbolizam o progresso do trabalho através de plataformas digitais, contribuindo para a diminuição do desemprego. No entanto, essa mudança também intensifica a precarização, a informalidade e a falta de segurança para milhões de profissionais no Brasil — Foto: Julia Aguiar/Infoglobo.
O Brasil conta com pouco mais de 6 milhões de indivíduos em busca de emprego. Apesar de ser um número significativo, representa a menor quantidade registrada no país desde o início da série da Pnad, do IBGE, em 2012. Durante 2025, foram geradas 1,7 milhão de novas vagas, tanto formais quanto informais, o que fez com que a taxa de desemprego alcançasse os menores níveis históricos, mesmo diante das altas taxas de juros que inibem o crescimento dos negócios. A taxa média anual finalizou 2025 com um inédito 5,6%.
A economia conseguiu enfrentar o endurecimento da política monetária voltada para o controle da inflação, com uma alta projetada de 2% por especialistas (os dados oficiais serão revelados em março) no ano anterior; no entanto, o PIB isoladamente não é suficiente para justificar a durabilidade dessa situação.
De acordo com especialistas consultados pelo GLOBO, existem pelo menos cinco transformações fundamentais no mercado laboral que podem explicar um possível estado duradouro de pleno emprego no Brasil, pelo menos do ponto de vista estatístico: demografia, educação, digitalização, plataformização e legislação trabalhista. Essas mudanças geram novas oportunidades, modificam as relações de trabalho e conferem maior flexibilidade ao mercado, mas também acarretam consequências negativas, como a precarização das funções e a diminuição da proteção ao trabalhador, ressaltam os economistas.
1 – População
É bem sabido que a população do Brasil está envelhecendo. Embora novas oportunidades de emprego estejam surgindo, o número de indivíduos em idade ativa (14 anos ou mais, conforme definido pelo IBGE) que estão empregados ou em busca de trabalho está diminuindo, o que impacta a fórmula da taxa de desemprego.
À medida que a população envelhece, um número maior de pessoas deixa o mercado de trabalho sem que haja uma reposição equivalente, o que contribui para a redução da taxa de desemprego. André Valério, economista do Inter, destaca que essa situação pode colocar o Brasil em uma posição semelhante à de nações desenvolvidas atualmente, porém com uma renda bem inferior.
Valério estima que, em 2025, a taxa de desemprego poderia ter aumentado em 1,5 ponto percentual se o Brasil mantivesse a mesma composição demográfica observada no começo da série da Pnad, em 2012. Caso o nível educacional fosse o mesmo, esse aumento chegaria a 2,2 pontos.
Os jovens estão ingressando no mercado de trabalho em uma idade mais avançada. Ao mesmo tempo, um número crescente de pessoas está se afastando das atividades laborais. Embora não existam pesquisas definitivas, economistas levantaram algumas teorias baseadas nas informações da Pnad e do Caged, um registro do governo que rastreia empregos formais. Essas teorias indicam que pode ter havido uma aceleração nas aposentadorias desde a implementação da Reforma da Previdência em 2019 e durante a pandemia em 2020.
Nesse cenário, companhias como a mineira Orguel, especializada em soluções de engenharia personalizadas, enfrentam mais desafios na hora de recrutar. A alternativa encontrada foi buscar profissionais experientes, que enfrentam maiores barreiras para se reintegrar ao mercado. Em 2025, a empresa fez a contratação de 15 indivíduos com mais de 40 anos. Entre eles está Cícero Oliveira, de 42 anos, que trabalha na área de manutenção de andaimes e estruturas.
— Fiquei cerca de dois anos sem trabalho, apenas fazendo pequenos serviços. À medida que envelhecemos, a busca por um emprego se torna mais desafiadora.
Segundo Mauricio Castro Alves de Sousa, que ocupa o cargo de diretor administrativo e financeiro da Orguel, a falta de trabalhadores exige um aumento nos investimentos voltados para a capacitação de profissionais.
— Investimos na fusão entre profissionais mais experientes, que oferecem conhecimento e sabedoria, e os jovens, que possuem habilidades tecnológicas avançadas e agilidade na aprendizagem.
Educação é um processo fundamental para o desenvolvimento humano. Ela envolve a transmissão de conhecimentos, valores e habilidades, moldando o caráter e a cidadania. Por meio da educação, os indivíduos adquirem instrumentos essenciais para compreender o mundo ao seu redor e para tomar decisões conscientes. Além disso, a educação desempenha um papel crucial na construção de sociedades mais justas e igualitárias, proporcionando oportunidades e capacitando pessoas a buscarem seus objetivos. A valorização do aprendizado contínuo é vital, pois contribui para a formação de cidadãos críticos e preparados para os desafios do futuro.
Embora a educação no Brasil ainda tenha pontos a serem aprimorados, houve avanços nos últimos anos, aponta o economista Marcelo Neri, que é diretor da FGV Social. Além do aumento no acesso ao ensino superior, ele destaca a melhoria nas taxas de conclusão do ensino médio entre os jovens que estão iniciando sua trajetória profissional: essa taxa subiu de 64% em 2016 para 75,1% em 2024, conforme dados do IBGE. Neri enfatiza que essa mudança influencia diretamente os salários.
— A taxa de desemprego não é o único indicador positivo; os salários também estão em ascensão, especialmente aqueles relacionados ao nível de escolaridade, que tem crescido. Diversos fatores estão interligados, e cada um deles fortalece os demais.
Adolescentes estão investindo mais horas em suas atividades acadêmicas e postpondo a inserção no mercado de trabalho, independentemente da classe social, desde o ensino básico até a educação superior. Essa diminuição na participação no mercado afeta diretamente os índices de desemprego.
Jaqueline Pina, de 23 anos, formada em Direito, continua morando com os pais enquanto realiza uma pós-graduação e se prepara para prestar concursos. Diante de uma insatisfação nas suas primeiras experiências no mercado de trabalho, ela optou por contar com o suporte de sua família de classe média para dedicar-se inteiramente aos estudos, almejando uma posição com salário mais atrativo no futuro.
— Tive uma experiência de exploração durante meu estágio em escritórios de advocacia, o que me fez reconsiderar essa carreira. Decidi então me preparar para concursos, pois posso investir meu tempo nos estudos. Isso é mais vantajoso, uma vez que, ao ser aprovada, consigo garantir a estabilidade e uma variedade de benefícios.
3 – Transformação Digital
Após o início da pandemia, a transformação digital nas empresas ganhou um ritmo acelerado, criando novas possibilidades e modelos de trabalho. Raphael Barboteu, um desenvolvedor de sistemas de 25 anos, tem sido frequentemente abordado nos últimos anos, principalmente pela web, para posições que podem ser remotas ou híbridas. Atualmente, ele se dedica ao desenvolvimento de softwares para monitorar rodovias, mas recentemente trabalhou como programador em um e-commerce de produtos de beleza e esteve envolvido em sistemas de gestão hospitalar e contabilidade.
Após a pandemia, ocorreu um aumento significativo, pois muitas lojas encerraram suas atividades e a solução encontrada foi a transformação digital do varejo. Esse setor teve um crescimento expressivo, mas, paralelamente, a quantidade de programadores também aumentou — ele comenta, mencionando o crescente interesse por cursos na área de tecnologia.
Conforme Barboteu, a maioria das ofertas que recebe é para firmar contratos como pessoa jurídica (PJ), ao invés de ser sob o regime da CLT, o qual ele prefere devido aos direitos e vantagens que proporciona.
4 – Transformação em Plataforma
Com 54 anos, o ex-segurança Carlos Marapodi descobriu na função de entregador por meio de aplicativos uma alternativa para enfrentar o desemprego.
Com 54 anos, Carlos Marapodi, que já foi segurança, encontrou na atuação como entregador por meio de aplicativos uma alternativa para enfrentar o desemprego.
Um dos fenômenos mais notáveis dos últimos tempos é o trabalho executado através de plataformas digitais, incluindo motoristas de veículos, motociclistas e entregadores que utilizam bicicletas. Esse formato de ocupação se tornou uma alternativa para muitos que possuem menor qualificação e enfrentam dificuldades para encontrar empregos formais. Nas estatísticas do IBGE, essas pessoas são contabilizadas como ocupadas.
— Essa situação contribuiu para a redução da taxa de desemprego, uma vez que alguém que perde o emprego pode rapidamente encontrar ocupação como motorista de aplicativo ou entregador. Dessa forma, consegue manter a produtividade na economia — afirma Bruno Imaizumi, economista da 4Intelligence.
Carlos Marapodi, 54 anos, enfrentou uma mudança significativa após ser demitido do cargo de segurança em um shopping. Para se sustentar, começou a utilizar sua bicicleta para realizar entregas por meio de um aplicativo. Contudo, ele compartilha que sua rotina é marcada por condições precárias, estresse constante e uma sensação de insegurança, além de lidar com discriminações e situações de violência nas vias urbanas.
— Andar sobre duas rodas traz diversas dificuldades. Muitas pessoas criticam quando nos veem na contramão, subindo calçadas ou desrespeitando sinais, mas nos aplicativos a gente precisa cumprir prazos rigorosos para pegar os pedidos e entregar. Se não seguir esses horários, sua avaliação diminui e você recebe menos chamadas para fazer entregas — explica. — Temos uma autonomia limitada; nossa jornada é 7 dias seguidos, sem férias ou décimo terceiro. Se adoecemos, não há remuneração.
A administração pública está avaliando uma normatização para essa atividade, mas ainda não apresentou uma sugestão concreta. Neri destaca que a maior parte desses profissionais não faz aportes para a Previdência.
— Há uma onda de acidentes de motocicleta que diminui a disponibilidade de trabalhadores de maneira extremamente negativa. A questão da escassez de jovens no mercado de trabalho está relacionada tanto à taxa de natalidade quanto aos índices de mortalidade.
5 – Normas de trabalho
A Reforma Trabalhista de 2016 é mencionada por especialistas como um fator que contribuiu para a diminuição do desemprego, pois diminuiu os encargos na contratação e os riscos legais para as empresas, além de introduzir formas de contratação mais flexíveis dentro da CLT, como o contrato intermitente. Entretanto, também tornou mais simples a pejotização, que se refere à prestação de serviços sem a formalização de vínculos empregatícios.
— Foram realizados processos de simplificação e digitalização em determinados serviços, como a constituição de empresas, resultando em um número recorde de negócios ativos atualmente, sendo que a maior parte deles é composta por microempreendedores individuais (MEIs) — afirma Imaizumi. (Foto: Reprodução)
Por Opinião em Pauta com informações de O Globo


