Henrique Acker – O que foi anunciado para ser um passeio de alguns dias, com direito a assassinato de dirigentes e uma imaginada queda do regime iraniano, transformou-se numa crise econômica e política em todo o Oriente Médio. Esse é o retrato da ofensiva militar dos EUA e Israel contra o Irã.
Sem ter como enfrentar duas potências militares que bombardeiam simultaneamente o país, o regime iraniano procura revidar, atingindo pontos estratégicos para os agressores e seus aliados no Golfo Pérsico.
Grandes produtores de petróleo da região tiveram oleodutos e refinarias danificadas e a passagem de sua principal mercadoria bloqueada no Estreito de Ormuz. Israel, até então protegido contra os ataques militares pelo chamado “escudo de ferro”, vê suas principais cidades serem atingidas por mísseis e drones.
Falsa ameaça nuclear iraniana
A justificativa de que o Irã enriquece urânio para a fabricação de armas nucleares perde cada vez mais força dentro dos EUA. A renúncia de Joe Kent, chefe de contraterrorismo de Donald Trump, e o depoimento no Senado de Tulsi Gabbard, diretora de Inteligência Nacional dos EUA, destruíram o principal argumento de Donald Trump para uma ofensiva militar.
Kent apresentou sua renúncia por escrito a Trump. “Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra que está sendo travada no Irã. O Irã não representava nenhuma ameaça iminente à nossa nação, e é evidente que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby nos EUA”, diz em sua carta de renúncia.
Já Gabbard confirmou que desde a “Operação Martelo da Meia-Noite” – a chamada Guerra dos 12 dias, em 2025 – o programa de enriquecimento nuclear do Irã foi destruído. “Desde então, nenhum esforço foi feito para tentar reconstruir sua capacidade de enriquecimento”, concluiu.
Negociações abortadas
Observadores que acompanharam de perto e participaram das negociações em Genebra (Suíça), no final de fevereiro deste ano, garantem que o Irã demonstrou boa vontade de chegar a um acordo com os EUA.
Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do Irã, chegou a anunciar um “entendimento” em torno de princípios centrais para um pacto entre Washington e Teerã. As negociações contaram com a presença de Rafael Gross, chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
O ministro de Negócios Estrangeiros de Omã, país que mediou as conversas em Genebra, confirmou que os dois países estiveram por duas vezes à beira de um acordo.
Já o conselheiro de segurança do Reino Unido, Jonathan Powell, que participou diretamente das negociações, confirmou ao jornal The Guardian que a proposta apresentada pelo governo iraniano era “suficientemente significativa para evitar um conflito armado”.

Prejuízos em toda a região
A ofensiva militar contra o Irã tem custado caro aos seus aliados no mundo árabe, como o Qatar, Arábia Saudita, Bahrein, Kuwait e Emirados Árabes.
Os ataques de mísseis e drones a usinas de dessalinização de água, aeroportos e instalações de produção de petróleo e gás, além de bombardeios a capitais como Abu Dhabi, Dubai e Doha, provocaram prejuízos imediatos e de médio prazo, além de espalhar a sensação de insegurança nos países do Golfo Pérsico.
A escalada dos ataques aumenta o risco de uma crise hídrica aguda numa região já marcada por clima desértico, secas severas e gestão crítica da água. Nada garante que, mesmo com a destruição em massa das infraestruturas do país, o regime iraniano será derrotado.
Netanyahu quer “Grande israel”
Cresce entre os analistas políticos e militares a convicção de que Trump decidiu atacar o Irã muito mais pela pressão do governo de Israel do que por indicativos sólidos da comunidade de informação dos EUA. Netanyahu jamais escondeu seu plano de expandir o território para o que chama de “Grande Israel”.
Enquanto as tropas estadunidenses bombardeiam território iraniano, o governo de Benjamin Netanyahu avança com a “limpeza étnica” contra os palestinos na Cisjordânia e massacra o sul do Líbano, sob o argumento de atacar o Hezbollah. O número de libaneses mortos já ultrapassa 1.000, com cerca de 2.500 feridos e cerca de um milhão de deslocados, forçados a deixarem suas casas.
Aproveitando-se que as atenções da imprensa internacional estão voltadas para o conflito no Irã, as forças militares de Israel vêm apoiando as milícias de colonos fanáticos sionistas, que agridem palestinos e ocupam suas terras e casas na Cisjordânia. O exército atua como força de legitimação das investidas ilegais dos milicianos, destruindo casas com tratores.
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações da BBC, The Guardian, Wafa-Agência Palestina de Notícias, Veja, Página 12 (Argentina), Observador (Portugal)


