Henrique Acker – Nas últimas semanas a mídia empresarial deu destaque a operações da Polícia Federal, tentando desbaratar esquemas empresariais que envolvem o PCC e o CV, duas conhecidas facções criminosas com atuação em todo o território nacional.
O ramo original da atuação do PCC era o comércio de armas. Já o CV iniciou suas ações na venda de drogas (maconha e cocaína). O que antes era varejo transformou-se nas últimas décadas em poderosos esquemas, envolvendo tentáculos internacionais e lavagem de dinheiro por diversas vias, inclusive igrejas de seitas neopentecostais e financeiras no mercado de capitais.
No entanto, aos poucos, um outro grupo vem se destacando no noticiário nacional: o CVP. Seu ramo de atuação começou no esporte, mais especificamente no futebol. A partir dali, foi criando inúmeras ramificações e hoje tem tentáculos em nível internacional, envolvendo patrocinadores, empresários de atletas, parte da mídia esportiva, empresas de material esportivo e toda uma gama de interessados.
Superando obstáculos
O crescimento avassalador do CVP nas últimas décadas foi fruto de uma conjugação de interesses, na qual seus simpatizantes são meros coadjuvantes. Começou quando uma rede de TV comprou, em 1998, os direitos de transmissão exclusiva do futebol brasileiro.
A partir dali o esporte deixou de ser só mais um ramo de negócio profissional para se tornar uma máquina de produzir lucros estrondosos. A tal ponto que a arrecadação com o futebol passou a ser a de maior retorno para a emissora e deve chegar a R$ 3 bilhões só em 2026, apesar de não existir mais a exclusividade das transmissões. Mas havia um obstáculo.
Não satisfeita com os ganhos aferidos com a venda das imagens, a emissora de TV investiu contra o chamado Clube dos 13, organização que reunia os maiores do futebol do Brasil. O objetivo? Acabar com o contrato único entre clubes e a TV, envolvendo a distribuição dos recursos pagos pela emissora aos 20 que disputavam a competição.
Esporte e negócios
O cálculo era óbvio. Sem um contrato assinado em acordo com todos, seria muito mais vantajoso fechar contratos individuais, por clube. Para levar em frente a empreitada, foi escalado um ex-funcionário, também ex-presidente do CVP.
Mais tarde esse mesmo senhor foi agraciado com contratos milionários de exposição de placas publicitárias nos estádios. Ele e outro ex-funcionário da emissora, que montara uma retransmissora no interior de S. Paulo, passaram a faturar alto com contratos com a Confederação de Futebol.
O sujeito foi lançado como candidato de “oposição” na eleição para a presidência do Clube dos 13. Não se elegeu, mas conseguiu 8 dos 20 votos. Não venceu, mas levou: um ano mais tarde, estava decretado o fim da entidade. E começou a era dos contratos por clube.
O principal critério? O chamado “retorno”, baseado no número de torcedores e pontos no Ibope. Logo, as agremiações de maiores torcidas ganharam as preferências do “mercado”.
Apito amigo
Mas não foi só isso. O CVP já tinha recebido patrocínio em seu uniforme da maior empresa estatal do país por 25 anos consecutivos, sendo 16 anos com exclusividade. Mais a frente, em outra operação inexplicável, abocanhou um contrato milionário de publicidade também exclusiva por três anos com um banco público, em plena pandemia.
Das preferências do “mercado” e dos patrocinadores que anunciam na emissora de TV, o CVP passou a ter grande influência na Confederação e, obviamente, sobre o comportamento da arbitragem.
Não porque sejam juízes “ladrões”, como são comumente acusados parte dos árbitros de futebol. Mas, como qualquer ser humano, são sugestionáveis. A menos que queiram enfrentar a conhecida “geladeira” da Confederação e ficar sem apitar os jogos do campeonato principal por um tempo.
Afinal, quem vai contrariar aquele pessoal que traz maior arrecadação para os negócios da TV? Assim, o Brasil todo passou a assistir, ao vivo e em cores, às maiores barbaridades dentro das quatro linhas.
Lances “polêmicos”?
O que começou no Rio – contra os rivais tradicionais – se expandiu para os confrontos com agremiações de todo o país. A tal ponto que hoje não há clube brasileiro que não tenha amargas lembranças de problemas com arbitragens, justamente nos jogos contra o CVP. E o troço se repete praticamente em todas as rodadas.
Mesmo com toda a tecnologia, que permite acompanhar as imagens das jogadas em detalhes, os escândalos continuam. Durante muito tempo esses lances eram tratados cinicamente por comentaristas da emissora de TV como “polêmicos”.
As barbaridades continuam ano a ano. É cartão vermelho para os adversários e cartão de crédito para os atletas do CVP; VAR que não vê irregularidades e não chama os juízes para verificar lances; é gol irregular, é pênalti forçado a favorecer o CVP e pênalti não marcado contra.
E assim, vão se acumulando pontos na tabela. O que, no final, gera um resultado lucrativo: o CVP esteve em quase todas as principais competições sul-americanas nos últimos 20 anos. Por que? O valor de transmissão desses jogos costuma ser ainda maior no mercado internacional.
“Roubado é mais gostoso”
A coisa tomou um rumo que vai além dos interesses do “mercado”. Não satisfeitos com a condução do esporte dentro dos gramados, os dirigentes do CVP iniciaram um movimento que leva à desmoralização das competições. É o verdadeiro “liberou geral” para tudo que se refere aos seus negócios.
Recentemente, ex-dirigentes foram absolvidos da acusação pela morte de dez adolescentes atletas num incêndio nas dependências da agremiação. Note-se que não havia sequer autorização para a instalação das acomodações precárias em que dormiam os rapazes.
Outra marmelada aconteceu no julgamento de um jogador-apostador, que combinara com familiares que receberia um cartão num dos jogos do campeonato brasileiro. Há provas de tudo. Inclusive com a denúncia da casa de apostas por internet.
O atleta em questão recebeu de punição somente a suspensão em 12 jogos, o que foi revertido com um “efeito suspensivo” na justiça desportiva. Mais tarde, o Tribunal absolveu o sujeito, que continua atuando como se nada tivesse ocorrido de anormal.
Logo depois, vieram a público as imagens do juiz que pediu vistas do processo, num estádio com a camisa do mesmo clube do réu. Em recente aparição, o jogador-apostador declarou que deve dar a resposta dentro de campo aos que o tratam com tanto ódio.
Até quando?
A rivalidade saudável, que dava origem a piadas e gozações entre amigos, deixou de existir. Perder ou vencer é do esporte e da vida. Mas como exigir dos torcedores de outros clubes que considerem normal o que assistem a cada rodada e, em especial, em jogos decisivos?
Por sua vez, os dirigentes do CVP, seus parceiros e patrocinadores estão ajudando a sedimentar o desrespeito pelos outros, conhecidos agora como “contras”. Como gostam de afirmar, tudo que se refere ao CVP está em “outro patamar”.
O que se assiste hoje é uma postura de fazer inveja aos líderes do Centrão. Afinal, como declarou um ex-atleta após mais um título conquistado com um dos tais lances polêmicos, “roubado é mais gostoso”. Não seria exagerado se o parlamento brasileiro abrisse uma CPI para investigar o que se passa dentro e fora dos gramados…
Por Henrique Acker (jornalista e colunista)
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Nota Editoria: Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.



