Afinal, qual a eficácia das chamadas “incursões policiais” em favelas e periferias? Quantas pessoas as polícias brasileiras mataram nos últimos anos? Qual o perfil dos mortos? Que limitações foram impostas pela Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 635) do STF? Isso impediu a ação das polícias?
Em função da boataria e dos argumentos desencontrados, é preciso analisar os números da segurança pública e da violência policial no Rio e no Brasil. Vamos a eles.
Medida do STF não impediu aumento de incursões policiais
“Depois de cinco anos de ADPF, muitas barricadas, muita dificuldade para a polícia entrar. São filhotes dessa ADPF maldita, que infelizmente um partido político (PSB) ingressou e prejudicou demais o Rio de Janeiro”, declarou o governador Cláudio Castro em 28/10, em entrevista coletiva. Não é o que mostra um relatório do Ministério Público.
Segundo dados oficiais, as polícias do Rio de Janeiro realizaram 5.400 operações em comunidades do Estado nos últimos cinco anos. O recorde foi em 2023, com 1,5mil incursões em comunidades. Isso em pleno vigor da ADPF 635, adotada em 2019.
Em 2025, até 15 de outubro, já haviam sido realizadas 787 incursões policiais em favelas. Em nenhum mês de 2025 as polícias do Rio fizeram menos do que 70 operações em comunidades no Estado.
Uma das exigências prevista na ADPF 635 seria a criação de um plano de recuperação territorial de áreas dominadas por facções e milícias, com cronogramas objetivos para cada etapa de trabalho, políticas para a juventude e implantação de serviços básicos.
Ao contrário do que se alardeia em redes sociais, as medidas que exigiam planejamento e cuidados extras foram eliminadas no julgamento final. Na prática, isso abriu brechas para violações: escolas e postos de saúde continuam a ser usados como base de operações e helicópteros como plataforma de incursões.
Policiais cometeram 38% dos homicídios no RJ até julho/25
De janeiro a julho deste ano, 811 pessoas morreram em ações policiais no Rio. É o segundo maior número desde 2007, apesar da ADPF 635 estarem vigor. De todos os homicídios cometidos no estado do Rio nos últimos sete meses, 38% foram decorrentes de intervenção policial. É a maior porcentagem nos últimos 15 anos.
Em relação ao mesmo período de 2024, houve aumento de 88,2%. De 2013 a 2023 a letalidade policial no Brasil aumentou188,9%. É o que revelam os dados do 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2024, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Segundo o anuário, em 2023, foram registradas, no total,46.328 mortes violentas intencionais em todo o país, o que representa 22,8mortes violentas a cada 100 mil habitantes.

Menos investigação e transparência
Se a violência policial cresceu, o mesmo não se pode dizer quanto ao número de inquéritos policiais militares (IPM) abertos pela Corregedoria da Polícia Militar. Foram 118 em 2019, e 93 no ano passado. De janeiro ao início de julho deste ano foram apenas 43.
Na comparação entre os dados de policiais militares investigados, o número vem caindo desde a posse de Cláudio Castro. Foram de325, em 2018, para 59 em 2020. Neste ano, até a data de conclusão do levantamento, apenas cinco PM eram investigados, de acordo com levantamento da Globo News.
De acordo com o 18º Anuário Estatístico de Segurança Pública, as vítimas fatais de intervenções policiais eram predominantemente pessoas negras: 82,7% do total. A taxa de mortalidade é 3,5 de pessoas negras contra0,9 de pessoas brancas.
A publicação destaca ainda que o risco relativo de um negro morrer em uma intervenção policial é 3,8 vezes superior ao de um branco. Entre os policiais mortos, a maioria também é negra.
Policiais morrem mais fora de serviço
Se aumentam as mortes por intervenções policiais armadas em favelas e comunidades de periferias, também aumenta a mortalidade entre os profissionais de segurança pública. 127 policiais foram assassinados em 2023, uma queda de18,1% em relação a 2022. Mas a maioria deles (57%), morreu fora do horário de serviço.
A segurança privada, atividade que muitos policiais exercem como “bico”, também aumentou. Em 2023 o crescimento foi de 9,3% em relação ao ano anterior, totalizando 530.194 profissionais no país. O número de empresas autorizadas a atuarem na área cresceu 3,6%, chegando a 4.978 em 2023.
Os registros ativos de posse de armas no país mais do que dobraram desde 2017, de acordo com os dados divulgados. Ao todo, em 2023, foram contabilizados 2 milhões e 88 mil registros ativos de posse de armas no Sistema Nacional de Armas, da Polícia Federal, um aumento de 227,3% desde 2017. (Foto: arquivo pessoal de Raull Santiago)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do G1, Agência Brasil, 18º Anuário Estatístico de Segurança Pública (2024), UOL Notícias, Estadão e imagem de O Tempo e do Portal Terra.
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Nota 1. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública é baseado em informações fornecidas pelos governos estaduais, pelo Tesouro Nacional, pelas polícias civil, militar e federal, entre outras fontes oficiais da Segurança Pública.
Nota 2. A Globo News realizou levantamento de dados com base na Lei de Acesso à Informação


