A identificação dos processos que regem a tolerância imune periférica, que concedeu o Prêmio Nobel de Medicina de 2025 a Shimon Sakaguchi, Mary Brunkow e Fred Ramsdell, abrange muito mais do que a imunologia fundamental.
A compreensão de como o organismo se protege para não atacar a si próprio criou um importante caminho na oncologia contemporânea, facilitando a análise de por que alguns cânceres conseguem burlar o sistema imunológico e de que maneira tratamentos podem corrigir essa situação.
“As células T reguladoras, conhecidas como Tregs, desempenham um papel fundamental nesse equilíbrio. Elas moderam a resposta do sistema imunológico para evitar a autoimunidade, mas, em certas situações, esse mesmo mecanismo de inibição pode ser aproveitado pelo tumor”, comenta Stephen Stefani, oncologista do Grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation.
O mecanismo de controle e estimulação do sistema imunológico
O sistema imunológico funciona como um mecanismo de defesa que pode detectar e remover microrganismos invasores ou células anormais. Entretanto, é crucial que ele também reconheça os componentes do próprio organismo e previna agressões indesejadas — isso é o que os pesquisadores denominam tolerância imunológica.
A pesquisa realizada por Sakaguchi e sua equipe revelou que, além do timo — o órgão responsável por ensinar os linfócitos a reconhecerem o que é parte do organismo e o que é considerado invasor —, há uma segunda camada de controle conhecida como tolerância periférica, que é gerida por um tipo específico de linfócito T, as células T reguladoras.
Essas células atuam como supervisores do sistema, evitando que outras células de defesa ultrapassem os limites estabelecidos. Quando o gene FOXP3, que é fundamental para sua formação e regulação, apresenta problemas, surgem doenças autoimunes severas.
Entretanto, o inverso também acontece: os tumores podem utilizar esse mesmo recurso para se defender, atraindo Tregs para se camuflar do sistema imunológico.
“O sistema imunológico apresenta duas formas de tolerância, que são a capacidade de não atacar os tecidos do próprio corpo. A primeira ocorre no timo, sendo chamada de tolerância central. A segunda é a tolerância periférica, que funciona como um mecanismo de controle para evitar reações excessivas. Sem essa regulação, o organismo pode atacar suas próprias células, enquanto em excesso, pode acabar defendendo tumores”, esclarece Cristina Bonorino, que coordena o Laboratório de Imunoterapia da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. (Foto: AFP)
Por Opinião em Pauta com info0rmações do G1



