Durante a COP30, realizada em Belém, a conversa acerca do futuro dos sistemas alimentares foca em um assunto central que permeia todos os diálogos: quem receberá recursos financeiros para efetivar a transição.
Assim, a expressão “transição justa” se faz presente em quase todas as discussões, painéis, discursos de líderes nacionais, slogans empresariais e nas falas de quem questiona o direcionamento das conversas oficiais.
A controversa “transição justa” se refere essencialmente ao processo de produção, armazenamento, distribuição, comercialização e consumo dos alimentos.
Na COP30, as atividades realizadas nesta semana por ambas as partes envolvidas nesse conflito refletem a essência do que está em disputa.
Por um lado, estudiosos, comunidades tradicionais e organizações sociais argumentam que é impossível alcançar a justiça sem alterar a base do sistema que atualmente favorece os lucros de grandes corporações, resultando em sérios danos sociais e ambientais.
Por outro lado, o setor agrícola busca reinterpretar o conceito para afirmar que a “agricultura brasileira é, de fato, sustentável.“.
Conflitos e histórias contadas
Durante um evento paralelo que ocorreu na quarta-feira, 12, Edna Kaptoyo, uma indígena Pokot do Quênia e integrante da Aliança Internacional dos Povos Indígenas e Tribais das Florestas Tropicais, destacou que as comunidades tradicionais já estão responsáveis pela produção de alimentos sustentáveis, utilizando práticas de agroecologia, sistemas agroflorestais e a preservação de fontes de água.
Entretanto, não recebem o suporte financeiro na medida adequada para que essas iniciativas possam se expandir além de meros “nichos”. “Os investidores hesitam em assumir riscos, e é impossível aprender sem arriscar. Já temos a resposta. O que falta é investimento, e não novas ideias”, lamentou.
Suranjana Gupta, consultora em resiliência comunitária da Huairou Commission, uma rede mundial de mulheres com foco local, compartilhou sua opinião: “Como podemos caracterizar o financiamento para as atividades que discutimos, visando uma transição justa que priorize as pessoas?”.
Valor astronômico de 12 trilhões de dólares
No Brasil, a agricultura familiar compreende 76,8% dos empreendimentos rurais, mas lida com significativos obstáculos, como a falta de acesso a financiamentos e políticas de incentivo. De acordo com estudos da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), o enfrentamento da crise climática exige uma transformação justa e sustentável no sistema agroalimentar.
Em um estudo acerca dos sistemas de alimentação e da COP30, é analisado que o atual modelo predominante do sistema agroalimentar global gera prejuízos indiretos ao planeta e às pessoas que chegam a aproximadamente 12 trilhões de dólares anualmente, o que representa cerca de 10% do PIB global.
Essas despesas, que ultrapassam o valor total da produção do sistema, englobam a deterioração do meio ambiente, a exaustão dos recursos hídricos e os efeitos na saúde da população.
A luta por fatia do financiamento
Na terça-feira (11), durante um evento promovido pela JBS no pavilhão da CNI (Confederação Nacional da Indústria), importantes empresas do setor alimentício e de insumos se mobilizam para liderar a transformação dos sistemas de alimentação.
Felippe Albuquerque, que ocupa o cargo de diretor de sustentabilidade da Bayer na América Latina, afirmou que os agricultores colaboradores da empresa estão “capturando mais carbono do que liberam” por meio de protocolos de agricultura regenerativa desenvolvidos em colaboração com a Embrapa e instituições acadêmicas.
Ana Carolina Carregaro, diretora de relações institucionais da Nestlé, solicitou “apoio financeiro do governo para realizar a transição”. Ela enfatizou que a transformação no sistema de produção de alimentos necessita da participação de toda a cadeia de valor, abrangendo também os produtores que estão na base.
A diretora executiva da Ajinomoto Brasil, Naoko Yamamoto, considerou a reformulação do sistema como “uma nova chance no mercado”. “O Brasil precisa estar à frente dessa transformação,” afirmou.
Na imagem destacada, multinacionais debatem a transição dos sistemas alimentares, durante encontro organizado pela JBS, na COP30, em Belém. (Foto: OP)
Por Opinião em Pauta, direto do Parque da Cidade (COP30)


