Em uma conversa com a jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, abordou os tópicos centrais da política externa do Brasil e ressaltou a importância do país no contexto global. A entrevista foi realizada pouco antes da Cúpula do BRICS, que contará com a presença de 14 líderes, mesmo com a falta de figuras como Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia), Abdul Fatah Al-Sisi (Egito) e Ali Khamenei (Irã).
Durante a entrevista, Vieira respondeu de maneira contundente às críticas sobre a possível falta de conteúdo do encontro. “Esse tipo de avaliação é bastante rasa”, declarou. “Recentemente, o presidente Donald Trump teve que retornar a Washington no meio de uma reunião do G7, no Canadá, e ninguém mencionou que a cúpula estava sem substância”, acrescentou. Para Mauro Vieira, a preocupação das potências ocidentais com o BRICS é natural, dado o poder que o bloco vem conquistando. “Rússia, Brasil e Índia são nações bastante diferentes. No entanto, China e Índia juntas somam 3 bilhões de pessoas. Se isso não é significativo, nada mais terá relevância.”
De acordo com suas palavras, o BRICS não é antagônico ao Ocidente, mas busca promover os interesses de seus países membros. “O G-20 também inclui potências ocidentais e nações do BRICS. Nunca nos afastamos de ninguém. Como o presidente Lula já mencionou, atualmente o BRICS e o G-20 têm mais relevância do que a ONU, que se encontra ineficaz, em uma situação deplorável”, enfatizou. Em relação à possibilidade de uma moeda unificada entre as nações do bloco, o chanceler respondeu de maneira sarcástica: “Não, quando eu estiver aposentado, com certeza. Porque isso é algo extremamente complicado.”
Vieira enfatizou o progresso significativo do grupo em colaboração com o Banco do Brics, que já disponibilizou US$ 100 bilhões em empréstimos, além da parceria em setores como saúde, pesquisa científica e inteligência artificial. “Não podemos permitir que somente nações altamente desenvolvidas, como os EUA e a China, dominem a inteligência artificial, enquanto nós ficamos relegados a pagar por seu uso”, ressaltou.
Mauro Vieira comentou sobre o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmando que, apesar de Lula e Trump nunca terem se encontrado, acredita que “quando eles se encontrarem, com certeza terão uma boa relação”. “É necessário que surja uma ocasião, uma oportunidade que ainda não ocorreu.”
Ao ser indagado sobre possíveis punições ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, o chanceler foi claro em sua resposta: “Não devemos dar relevância a isso. Ignorar e seguir em frente. O que o Brasil poderia fazer? Se voltar e expressar descontentamento?” Vieira negou a alegação de que Moraes seria um ditador: “Eles fazem essa afirmação. Mas isso não é verdade. Simplesmente não é. Precisam se informar adequadamente”, declarou.
Ao discutir o conflito em Gaza, o ministro reafirmou a posição do presidente Lula, afirmando que ele “está correto em suas críticas. Não é aceitável ver crianças, jovens e idosos sendo alvejados enquanto aguardam por alimentos em Gaza.” Vieira também esclareceu que as críticas do Brasil são voltadas ao governo de Israel, e não à população. “Sempre mantivemos excelentes relações. O Brasil foi um dos signatários da criação de Israel na Assembleia Geral da ONU.”
A respeito do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), Vieira expressou sua insatisfação quanto à sua natureza desigual. “O TNP mantém a situação como está. Aqueles que já possuem armas nucleares continuam com elas, enquanto os que não têm ficam impedidos de adquiri-las.” No entanto, ele ressaltou: “O Brasil é uma nação pacífica. A escolha de renunciar à arma atômica foi uma decisão correta. Infelizmente, isso não serviu de exemplo para outras nações.” (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Por Opinião em Pauta com informações da Folha de São Paulo


