Henrique Acker – Na semana que se encerra, líderes de dois dos maiores partidos do governo e da oposição foram pegos em situações constrangedoras, que desabonam a vida parlamentar. Jacques Wagner (PT) e Sóstenes Cavalcante (PL) estão expostos a dúvidas e questionamentos. É verdade que os motivos são bem distintos, mas as razões são comprometedoras.
Acordo ou desencontro?
Jacques Wagner foi responsável por uma articulação no Senado que resultou na votação e aprovação do Projeto de Lei que reduz a pena dos golpistas de 8 de janeiro de 2023. A negociação incluiu a colocação em pauta de outros projetos de interesse do governo.
Acontece que o próprio presidente Lula já sinalizou que vetará qualquer projeto que incluísse a redução de pena para golpistas. Além disso, há o debate sobre a constitucionalidade ou não do projeto da dosimetria, visto que criaria uma situação especial para um grupo de apenados.
No dia seguinte à votação, a bancada do PT na Câmara deu entrada com uma ação de inconstitucionalidade do projeto no STF. Ainda assim, Wagner não se fez de rogado e declarou que não se envergonha do que fez, afirmando que faria tudo de novo.
Para além de um possível desencontro ou mesmo uma divergência sobre a condução do Partido dos Trabalhadores no Senado, o que ficou complicado explicar é outra questão.
A negociação saiu só da cabeça de Jacques Wagner? Ou tem a ver com a reunião entre Hugo Motta e Lula, mediada pelo ministro Fernando Haddad no final de semana anterior? Se foi uma iniciativa isolada de Wagner, não caberia ao governo encontrar outro líder no Senado?
Se era para negociar a votação em troca de outras matérias, por que isso não foi dito aos milhões de brasileiros que foram convocados a sair às ruas no dia 14 de dezembro para protestar contra o “PL da bandidagem”, como apelidaram o projeto? Ou será que a mobilização popular passou a ser mero detalhe da luta política parlamentar?
Malas pesadas
Outro que precisa se explicar, por motivos bem diferentes, é o pastor Sóstenes Cavalcante, líder do Partido Liberal e principal porta-voz do bolsonarismo na Câmara dos Deputados
Como justificar a apreensão de uma bolsa repleta de maços de dinheiro (em notas de R$ 100) dentro de um armário na sua residência, em Brasília?
Segundo a PF, a operação Galho Fraco – autorizada pelo ministro Flávio Dino (STF) – se justifica porque “agentes públicos e empresários teriam estabelecido um acordo ilícito para o desvio de recursos públicos oriundos de cotas parlamentares”.
Esses recursos seriam usados para contratos com empresas de fachada, entre elas uma locadora de automóveis. A acusação foi negada pelo deputado Carlos Jordy, outro investigado e também do PL, que alegou ser vítima de uma “perseguição implacável” e que vivemos sob uma “ditadura do Judiciário”.
Sóstenes tentou, mas as razões apresentadas e a própria cena pareceram um tanto fora da realidade. Ele disse à imprensa que o dinheiro seria fruto da venda de um imóvel. O problema é que a suposta negociação, num total de R$ 430 mil, teria ocorrido há dois anos.
A declaração, no mesmo estilo conhecido de indignação quanto a uma delação caluniosa contra a honra do parlamentar, foi feita com palavras de uma “cola” que Sóstenes lia enquanto discursava.
O ministro Flávio Dino e a Procuradoria-Geral da República haviam negado uma solicitação anterior para investigação dos deputados. Agora, diante do material colhido de celulares de assessores dos parlamentares, Dino autorizou a operação da PF.
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do G1, CNN Brasil



