Henrique Acker – Nada se escreve e se publica nos jornalões que não passe pelo crivo das chefias. Principalmente nas colunas e editoriais. E os chefes de redações respondem aos proprietários. Portanto, não nos enganemos: o que Malu Gaspar publica em sua coluna certamente passa pelo “aquário” de O Globo.
Está evidente que a parcela mais conservadora e consciente das classes dominantes brasileiras decidiu abrir fogo contra a cúpula do Poder Judiciário. Os alvos? Primeiro, Alexandre de Moraes, que investiga e propõe a punição de golpistas e seus apoiadores. Depois, Flávio Dino, que fiscaliza e breca os abusos e a aplicação dos recursos das emendas parlamentares.
Acontece que a simples atuação firme desses dois ministros do STF está mexendo com interesses incrustados há décadas no modus operandi dos poderosos. Essa gente não sabe o que é cumprir lei, prestar contas e, sobretudo, respeitar o dinheiro público e os direitos da maioria.
Pudera, são os mesmos que odeiam ter que pagar impostos, serviços públicos, salário mínimo, 13º salário, férias remuneradas, aposentadoria, direito de greve, enfim, alguns poucos benefícios que foram conquistados com suor e sangue de quem trabalha na tímida democracia em que vivemos.
Para os ricaços brasileiros do sistema financeiro, do agronegócio, das holdings, das bolsas de valores e os grandes investidores, o país deve seguir oferecendo lucro máximo e o Estado servir de fiador aos seus negócios. Tudo que fugir disso é considerado “gasto desnecessário”, realizado por um Estado “inchado”.
Não importa quem está comandando o circo. O importante é que a função aconteça todos os dias. Mesmo que o domador seja miliciano, que a bailarina seja uma traficante, que o engolidor de fogo seja um deputado corrupto e que o apresentador seja um bispo neopentecostal.
Se é preciso financiar e comprar governantes, tudo bem. Se for necessário a associação a grupos armados e seitas religiosas para dominar territórios e lavar dinheiro sujo, nenhum problema. Para essa gente só importam suas taxas de lucro e que o espetáculo continue.

O caso do Banco Master e BRB expõe com clareza a ausência de regras a que as classes dominantes estão acostumadas.
De um lado, um banco privado que cresce rapidamente, oferecendo taxas de retorno em investimentos financeiros fora do comum. De outro, um banco público, usado para financiar e encobrir falcatruas, a partir da determinação de governantes inescrupulosos.
Corda bamba
Quando finalmente o Banco Central entra em cena anunciando a liquidação do brinquedinho do playboy Daniel Vorcaro e a fiscalização no BRB, bate o desespero e tocam as sirenes. É preciso parar com as investigações.
O ministro Dias Toffoli (STF) não se fez de rogado e decretou logo o sigilo nas investigações do caso Master. É preciso ir mais longe e impedir que as falcatruas venham a público e os envolvidos sejam desmascarados e punidos. Curioso que Toffoli não seja alvo das preocupações moralistas de O Globo e seus colunistas.
Mais adiante aparece uma nota publicada em O Globo, insinuando que Alexandre de Moraes estaria fazendo tráfico de influência junto ao Banco Central para deter a liquidação do Master, por uma relação de prestação de serviço de sua esposa para aquele banco.
Não são apresentados registros das supostas conversas entre Moraes e Galípolo. Entre as fontes da colunista estão o próprio dono do Master e outro banqueiro interessado em frear as investigações, o dono do BTG Pactual.
Agora, o jornalista Luís Nassif publica no portal do Jornal GGN que o Will Bank – braço digital do banco Master – firmou contrato de patrocínio do Domingão, programa da Rede Globo.
O patrocínio garante entre oito e doze minutos de visibilidade por episódio. O investimento total é estimado entre R$ 120 milhões e R$ 160 milhões, por um período de seis a oito domingos.
É preciso mais alguma coisa para interromper a “função”? Até quando dona Malu e outros colunistas globais vão seguir se equilibrando nessa corda bamba?
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações do GGN, DCM e imagens de Conecta Piauí e portal Migalhas.



