Henrique Acker – O que se anunciou como “novo”, acabou repetindo velhas fórmulas de governar Minas Gerais. Os mesmos privilégios a grandes empresas, com isenção de impostos e privatização de serviços públicos, foram assegurados. A contrapartida se viu nas doações de campanha e no crescimento vertiginoso do patrimônio do governador.
Durante as gestões de Romeu Zema, as renúncias e isenções fiscais concedidas a empresas em Minas Gerais bateram recorde e saltaram de R$ 6,1 bilhões, em 2019, para uma estimativa de R$ 25,2 bilhões em 2026. O montante de imposto não arrecadado por meio de incentivos e Regimes Especiais de Tributação (RET) se aproxima dos R$ 120 bilhões no acumulado da gestão Zema.
Incentivos para poucos e dívida nas alturas
A lista de empresas beneficiadas revelou incentivos concentrados em grandes setores industriais e varejistas em 2025: R$ 1,5 bilhão para a Ambev; R$ 889 milhões para a Stellantis; R$ 584 milhões para a Unilever; R$ 600 milhões para a Souza Cruz; R$ 551 milhões para o Mercado Livre.
Somente 20 empresas receberam 40% (R$ 7,3 bilhões) de um total de R$ 19,4 bilhões da isenção fiscal do Estado. Entre elas a Eletrozema, empresa da própria família do governador, que economizou R$ 2,28 milhões.
A dívida total de Minas Gerais cresceu 63% na gestão Romeu Zema. De acordo com dados da Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais (SEF), em dezembro de 2019 a dívida total de Minas Gerais, incluindo os débitos com a União, somava R$ 123,36 bilhões. No mês passado, ela atingiu o patamar de R$ 201,09 bilhões.
Saneamento privatizado e reativação de Brumadinho
Em contrapartida, o governo Zema entregou o controle da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) – que registra lucro anual de R$ 1,5 bilhão – à Equatorial Energia, que também gerencia a Sabesp privatizada em São Paulo. A Equatorial arrematou 30% das ações, enquanto a Fundos Perfin, ligada ao banco BTG Pactual, ficou com 12,76%, restando ao Estado 5% das ações.
A decisão de Zema se chocou com a opinião da maioria da população de Minas. Num plebiscito realizado em 2024, por iniciativa de movimentos populares, 95% dos consultados rejeitaram a privatização da Copasa, temendo problemas com os serviços prestados e aumentos das tarifas.
Em outra medida que confrontou a opinião pública, Zema reativou a exploração de minério na Mina da Jangada, em Brumadinho. Na mesma região, 272 pessoas morreram soterradas por lama tóxica, devido ao rompimento de uma barragem no Córrego do Feijão, em 2019.
O governo reativou a licença e transferiu sua titularidade para a Itaminas Comércio de Minérios S.A. O direito de exploração da lavra continua sendo da Vale, que arrendou a mina à Itaminas. Na prática, a operação é realizada pelas duas empresas.
Doadores abastados e patrimônio milionário
Dos pouco mais de R$ 7 milhões arrecadados por Romeu Zema entre doadores para sua campanha, em 2022, R$ 3 milhões (41,4%) foram dos sócios-fundadores da Localiza Rent a Car S/A, Antônio Cláudio Brandão Resende, Flávio Brandão Resende e José Salim Mattar Júnior.
Carlos e João de Lima, sócios do Banco Neon S/A – antigo Banco Pottencial –, cujas operações foram liquidadas extrajudicialmente pelo Banco Central em 2018, também aparecem como doadores.
O diretor-presidente da MRV Engenharia e Participações S/A, Rafael Menin, doou R$ 800 mil. Maria Fernanda Menin, que é integrante do conselho de administração da MRV e do Banco Inter S/A, destinou R$ 200 mil. Já os donos da construtora Ourivio Participações S/A, Carlos Géo Quick e João de Lima Géo Filho, doaram, respectivamente, R$ 1 milhão e R$ 350 mil.
Sílvia Carvalho Nascimento e Silva, que é uma das sócias do Grupo Ferroeste, doou R$ 500 mil. A empresa tem o controle do Aço Verde do Brasil (AVB), da Destilaria Veredas e do Cimento Verde do Brasil (CVB). Rodrigo Andrade Valadares Gontijo, um dos sócios da Mineração Serra Azul Ltda., doou R$ 150 mil.
De 2018 a 2026, período em que governou Minas, o patrimônio de Romeu Zema cresceu 156%. O ex-governador e candidato do Partido Novo à Presidência da República, saiu de R$ 69,75 milhões para R$ 178,7 milhões em oito anos, segundo as declarações de bens apresentadas à Justiça Eleitoral.
Por Henrique Acker, com informações de Mongabay, Brasil de Fato, O Globo, G1, CNN Brasil, O Tempo, UOL Notícias, Portal da Assembléia Legislativa MG, Época Notícias, privilegiometrotributario.



