Henrique Acker – O artigo abaixo é de autoria do jornalista, historiador e sindicalista Anthony Bellanger (*) que este colunista repercute, dada a situação dramática vivida por profissionais da imprensa vitimados da barbárie sionista em Gaza:
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A história só será gentil com testemunhas. Em Gaza, ela lembrará o nome de Anas al-Sharif, o jovem repórter da Al Jazeera morto em 10 de agosto de 2025, e os de outros 222 jornalistas assassinados ao longo de dois anos pelo exército israelense. Aqueles que escolheram eliminá-los permanecerão condenados para sempre.
Há quase dois anos, Gaza é o território mais perigoso do mundo para o exercício da profissão. Israel proíbe a entrada de jornalistas estrangeiros. A verdade cabe exclusivamente aos repórteres palestinos, quase todos membros do Sindicato dos Jornalistas Palestinos, afiliado à Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ). Frequentemente, trabalham sem proteção, sem abrigo para suas famílias. E, com muita frequência, são alvos diretos.
A profissão nunca experimentou um massacre como esse. A Federação Internacional de Jornalistas, fundada em 1926 e que celebrará seu centenário em Paris em maio de 2026, não registrou um número de mortos comparável, nem durante a Segunda Guerra Mundial, nem no Vietnã, nem na Síria ou no Iraque. Gaza se tornou o pior cemitério de jornalistas da história contemporânea.
Esta não é uma série de tragédias acidentais. É uma estratégia: matar as testemunhas, fechar Gaza, bloquear a narrativa. Manter a imprensa internacional de fora significa silenciar observadores independentes. E num momento em que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu promete “recolonizar” Gaza, controlar a narrativa torna-se tão crucial quanto controlar o território. Colonizar também significa apagar as ruínas, os mortos, os sobreviventes e aqueles que contam suas histórias.
Da fronteira norte até a Cidade de Gaza, centenas de milhares de moradores foram forçados a fugir para o sul. Mas esse “sul” não é um refúgio: não oferece segurança nem saída. Famílias estão amontoadas, presas entre as bombas e o mar, sem ter como escapar da guerra. Essa realidade de cerco total também é sentida por jornalistas, condenados a trabalhar confinados em um enclave onde a sobrevivência se torna cada vez mais improvável.
Nesse contexto, o reconhecimento do Estado da Palestina por um número crescente de países na ONU tem valor simbólico. Mas chega tarde demais. Não protege os vivos nem faz justiça aos mortos. A diplomacia alcança a história, mas depois do irreparável.
Quem, então, protege essas testemunhas? Nem a ONU, paralisada, nem as grandes potências, cúmplices com suas entregas de armas e seu silêncio. Jornalistas palestinos continuam sua missão sozinhos, até a exaustão. Até a morte.
A FIJ, por sua vez, está atuando no terreno. Apoia diretamente repórteres e suas famílias por meio de seu Fundo Internacional para a Segurança. Ela registra o cotidiano de seus colegas, Sami, Gharda e outros, para que sua cruel realidade não seja reduzida a números. E, há vários anos, vem defendendo uma Convenção Internacional das Nações Unidas que obrigue os Estados a proteger jornalistas e punir seus assassinos. Enquanto essa Convenção não existir, a impunidade prevalecerá e protegerá os líderes israelenses.
Um lembrete vital, repetido há anos pela FIJ a jornalistas e profissionais da mídia portadores de carteira de imprensa internacional: ” Nenhuma reportagem vale uma vida humana “. Isso não é um slogan: é uma regra de sobrevivência. A missão dos jornalistas não é morrer como mártires, mas testemunhar em segurança. Sua proteção é uma responsabilidade coletiva. Cada capacete, cada colete à prova de balas, cada treinamento de segurança é vital.
Em Gaza, muitos se perguntam: “Qual o sentido de continuar?” As evidências abundam, os testemunhos se acumulam, e ainda assim nada muda. Mas desistir seria pior. Porque o silêncio é a vitória dos carrascos, permitindo-lhes dizer que nada aconteceu.
Cem anos após sua fundação, a FIJ enfrenta o teste mais terrível de sua história. Gaza se tornou o túmulo do jornalismo. Se permitirmos que repórteres morram ali em indiferença, estaremos abrindo caminho para outros regimes que amanhã considerarão o assassinato de jornalistas um instrumento comum de guerra.
Anas al-Sharif não queria morrer. Ele queria informar o mundo, em segurança. Sua morte, e a de nossos 222 colegas, nos obriga.
Israel mata jornalistas. Matar jornalistas é matar a verdade. E um mundo sem verdade é um mundo onde os carrascos reinam supremos.
Na imagem destacada, Secretário-Geral da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), Anthony Bellanger (Foto: portal da Federação Nacional da Imprensa Italiana)
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(*) Artigo de Anthony Bellanger jornalista, sindicalista e historiador francês e belga (PhD). Desde 2015, é Secretário-Geral da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) e professor visitante de jornalismo na Universidade de Mons (Bélgica). Artigo reproduzido do ifj.org


