Antes de tomar posse, o presidente Donald Trump prometia acabar com as guerras da Ucrânia e em Gaza em alguns dias. No entanto, os avanços tímidos nas negociações com russos e ucranianos e o retorno dos bombardeios israelenses em Gaza provam que os desafios são muito maiores que as bravatas de campanha eleitoral.
Trump parece lidar com questões políticas como quem trata de negócios privados. É certo que por trás das guerras há sempre interesses econômicos, mas o pragmatismo empresarial nem sempre se aplica a conflitos geopolíticos.
Avanço tímido na Ucrânia
O anunciado primeiro avanço nas negociações patrocinadas pelos EUA com ucranianos e russos carece do apoio de outros atores. A navegação comercial no Mar Negro só é viável se houver segurança para as embarcações, sobretudo graneleiros. Isso exigiria o levantamento de sanções econômicas impostas pela União Europeia, para que os navios russos tenham inclusive seguro.
Além de visar as chamadas terras raras na Ucrânia, os EUA insinuam a ideia de administrar a maior central de energia nuclear da Europa, no território ucraniano de Zaporizhzhia. Os russos descartaram essa questão.
Já os ucranianos querem garantias de que o país não sofrerá novos ataques russos, insistindo na fixação de um contingente de soldados de países da OTAN na fronteira russa. Vale lembrar que as nações europeias com capacidade militar, tropas e equipamentos, são Inglaterra, Polônia e França.
Como afirmam alguns analistas, o máximo que a Ucrânia – em franca desvantagem militar – pode conseguir é um acordo de “Istambul 2022”, adaptado à realidade da frente de batalha dos dias atuais. Ou seja, sem retomar os territórios já conquistados pela Rússia e sem adesão à OTAN.
Bravatas e realidade
Caso o governo Zelensky insista na posição defendida pela União Europeia, sem ceder território e com adesão à OTAN, não haverá acordo com a Rússia e a guerra pode se prolongar por muito mais tempo.
Neste caso, os países europeus pouco podem fazer, a não ser a adoção de novas sanções econômicas e o envio de armas aos ucranianos. A Ucrânia ainda arriscaria perder o porto de Odessa pela força das armas, ficando sem acesso ao Mar Negro, o que seria desastroso para a economia do país.
Numa guerra convencional, convém usar a racionalidade para analisar as forças em confronto, o peso geopolítico de cada país envolvido, o poderio militar de cada um, as posições perdidas e conquistadas pelos dois lados. Só assim é possível estabelecer metas e negociações realistas.
Tudo mais se transforma em pirotecnia, diante do flagelo dos combates, mortes e destruição que atingem sobretudo a população civil. Num mundo em que as movimentações em terra são monitoradas por satélites em tempo real, não cabem bravatas e nem blefes.
Gaza é a ponta de um novelo
No caso de Gaza, o problema envolve muito mais do que um pequeno território palestino com cerca de 2,2 milhões de habitantes. O conflito se arrasta desde o início do século XX, quando o sionismo firmou questão no retorno do “povo escolhido” à “terra prometida” no Oriente Médio.
O nacionalismo sionista já anunciou a meta de conquistar todo o Levante, região que vai do leste do Egito ao sul do Líbano, originalmente habitada por fenícios e filisteus, além de diversas tribos árabes e de religiões distintas, inclusive o judaísmo.
Portanto, a pretensão de buscar a paz tem sempre o limite de um cessar-fogo temporário, condicionado pela justa reivindicação – já reconhecida pela ONU – de uma pátria naquela mesma região para o povo palestino.
Reféns são detalhe
Hoje, ao contrário de tempos passados, a maioria dos grupos políticos palestinos já admite a solução da coexistência entre dois estados no Levante. No entanto, o predomínio do sionismo como doutrina de Estado em Israel impede que a paz seja alcançada, à medida que seus líderes não admitem a existência de um Estado Palestino.
Ou seja, o impasse não está condicionado por um conflito militar momentâneo, mas pela posição intransigente do Estado de Israel de não aceitar o direito do povo palestino à sua pátria. E isso piora com o avanço da extrema-direita e a implantação de colônias de fanáticos judeus na Cisjordânia.
Todo o conflito em Gaza cruza com a necessidade da aliança entre a direita de Netanyahu e a extrema-direita que o apoia, para preservar o atual governo, denunciado na Justiça israelense por inúmeras ilegalidades. Netanyahu usa o confronto militar em Gaza e no sul do Líbano para justificar a continuidade de seu governo. Os reféns do Hamas são apenas um detalhe.
Agradar a Rússia
A paz na Ucrânia e no Oriente Médio dificilmente será alcançada enquanto a mediação dos conflitos estiver nas mãos do governo dos EUA. Não se trata de uma questão de boa vontade ou competência para negociar, mas de interesses diretos envolvidos nos dois conflitos.
No caso do Leste Europeu, com a chegada de Trump ao governo, é evidente que a Casa Branca trata a Rússia de Putin com muito mais respeito que a Ucrânia de Zelensky. A União Europeia é tida por Trump como um fardo a carregar, pela subordinação da política de seus dirigentes.
Um acordo que agrade ao Kremlin pode travar os compromissos de Putin com seus aliados e ser decisivo para as pretensões geopolíticas do trumpismo. Isso inclui limitar ao máximo as capacidades militares do Irã, hoje um dos maiores aliados e fornecedores de armas a Moscou.
Isolar a China
Os EUA são os mais fiéis aliados e patrocinadores de Israel desde o surgimento daquele Estado, em 1947. Toda a máquina de guerra israelense tem apoio financeiro e tecnológico dos EUA, o que é determinante para a política no Oriente Médio. Por isso, a paz em Gaza e o fim do massacre do povo palestino não são prioridades para Washington, mas podem dificultar sua relação com os países árabes.
Na atual etapa do capitalismo financeirizado ocidental, com a predominância da especulação sobre a produção, a força das empresas de alta tecnologia e o avanço da extrema-direita, torna-se decisivo impedir o crescimento do modelo chinês de desenvolvimento capitalista, que avança, disputa e toma os mercados em todo o planeta.
Por isso, Trump deixou claro que seu verdadeiro objetivo é conter o avanço econômico, tecnológico e militar da China. E quer limpar o terreno, tanto na Europa quanto no Oriente Médio, antes de investir contra o seu alvo preferencial. Resta saber se sua política será capaz de produzir os resultados esperados pelo grande capital financeiro especulativo no cenário internacional.
Por Henrique Acker (correspondente internacional)