Henrique Acker – Ter um teto para morar ficou difícil em todo o Planeta, depois que o sistema habitacional deixou de ser apenas uma necessidade e passou a integrar uma das carteiras de investimentos do sistema financeiro internacional. É o que acontece hoje em toda a Europa, inclusive na capital alemã, a cidade de Berlim.
O tema dominou os debates da eleição regional de 20 de setembro, que deu a vitória ao partido Die Linke (A Esquerda), que obteve 25,7% dos votos e 44 cadeiras na Assembleia. Uma campanha feita porta a porta e centrada na questão da moradia deu a vitória ao Die Linke.
O partido defendeu a socialização de grandes empresas imobiliárias, um teto para os aluguéis das companhias públicas de habitação, um órgão estadual de proteção aos inquilinos e um programa de moradia social.
Consulta popular em 2021
Em sua maioria (57,6%) os berlinenses já haviam aprovado numa consulta popular em 2021 a expropriação de imóveis de grandes corporações como medida para conter a especulação promovida pelos fundos de investimento imobiliário e os elevados preços dos aluguéis.
Como o resultado da consulta não tinha caráter de execução obrigatória pelos governantes, as medidas aprovadas em 2021 não foram adiante. A prefeitura, então dirigida pelos conservadores da CDU, desconsiderou a vontade popular, mas os berlinenses não esqueceram.
A crise imobiliária persiste e foi o carro-chefe da campanha de A Esquerda, de Elif Eralp, filha de imigrantes turcos, que deverá comandar o governo nos próximos quatro anos.
Apesar de reafirmar a meta de segurar os preços dos aluguéis, Elif Eralp dependerá do apoio do partido Social-Democrata para ter maioria na Assembleia Legislativa e governar. Mas o SPD já anunciou que não concorda com a desapropriação de imóveis das grandes imobiliárias.

Imóveis para temporada encareceram a moradia
Em Berlim, cerca de 80% dos 3,9 milhões de habitantes residem em casas e apartamentos alugados. Dez grandes empresas dominam o mercado imobiliário na cidade. Os aluguéis já haviam disparado 85% entre 2007 e 2019.
Para piorar a situação, em abril de 2021 a Justiça Federal derrubou uma lei estadual que congelou os preços dos aluguéis. A partir dali os proprietários passaram a dar prioridade aos pequenos apartamentos mobiliados para aluguel de curta duração, encarecendo ainda mais os valores cobrados aos berlinenses.
O valor do metro quadrado saltou de 12€ para 18€ na cidade, sem contar com o aquecimento e o condomínio, de acordo com a consultoria Guthmann Estate. Os preços dos aluguéis subiram mais 50% entre 2021 (ano da consulta à população) e 2026.
Especulação financeira
Os fundos de investimento imobiliário operam captando recursos de investidores para comprar e gerenciar bens e títulos no mercado de imóveis comerciais e residenciais. Os fundos imobiliários são divididos em cotas, negociadas em bolsas de valores.
Ou seja, o sistema de fundos imobiliários não se movimenta em função da demanda de moradia e investimentos em novas construções para os cidadãos, mas de seus cotistas, que vivem do lucro de suas cotas distribuído mensalmente pelo mercado financeiro.
Em 20256, o preço médio de um apartamento de quarto e sala em Berlim varia de 950€ (bairros afastados) a 1.500€ (bairros centrais). Já os contratos para temporada em imóveis mobiliados podem variar de 1.200€ a 1.590€. Ainda é possível encontrar quitinetes no valor de 580€ a 850€, mas somente na periferia da cidade.
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com informações de Deutsche Welle, Guthmann Estate, G1, Housing Anywhere, Vermelho, portal da CONTEE.



