Henrique Acker – Depois de muita especulação e de até se aventar a possibilidade de um novo golpe contra o governo Lula – desta vez pela via parlamentar – o jornalismo ajudou a elucidar o que estava por trás da pauta-bomba de 8 de dezembro na Câmara.
A repórter Camila Turtelli, de O Globo, estava dentro do Plenário antes do início da sessão. Ela pretendia conversar com Paulinho da Força, relator do chamado PL da bandidagem. Já se sabia que a pauta havia sido alterada e o burburinho nos corredores era grande.
Hugo Motta colocaria em votação o PL da dosimetria das penas, que reduziria o tempo de cadeia dos condenados pela tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, incluindo Bolsonaro e os generais.
Turtelli logo percebeu um grupo de deputados que conversavam em voz alta e ligou seu gravador. No diálogo, o deputado Léo Prates (PDT/BA) informava aos demais que esteve numa reunião de líderes.
Prates disse que Sóstenes Cavalcante (PL/RJ) disse que o governo só havia pago 52% do valor das emendas impositivas, aquelas que são indicadas pelos parlamentares e constam do orçamento do governo. E que Hugo Motta teria dito: “Eu preciso da ajuda para pagar”.
Ainda segundo o deputado Léo Prates, o líder do governo, Lindberg Faria, teria garantido que o pagamento das emendas sairia até 30 de dezembro. O problema é que os líderes do Centrão e do bolsonarismo fincaram pé e exigiam que o pagamento fosse liberado até a quinta-feira, 11 de dezembro.
Prates não ficou até o final da reunião. Mas o que se viu pouco depois foi a colocação da tal dosimetria da pena para golpistas e as quatro cassações de Glauber Rocha, Carla Zambelli, Alexandre Ramagem e Eduardo Bolsonaro. Segundo ele, “isso aí era para trocar”.
“Foi aí que veio uma pauta bomba danada”, concluiu Prates na conversa com colegas. E foi retrucado por outro deputado: “Eu acho que vai pagar”.
Ou seja, todo o circo montado por Hugo Motta tinha como pano de fundo a liberação de verbas das emendas dos deputados. O bolsonarismo percebeu a oportunidade de oferecer uma pauta que seria uma derrota acachapante para o governo. Como afirmei em artigo anterior, uma mão suja a outra.
Seja como for, o fato é que o PL da bandidagem foi votado e aprovado na Câmara. Agora vai à apreciação na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, que pode alterá-lo ou enviar a proposta que safa os líderes da tentativa de golpe de cumprirem integralmente suas penas.
Líderes dos partidos da base do governo Lula e movimentos populares já estão convocando manifestações de rua para o domingo, 14 de dezembro. Nova queda de braço no cenário político nacional, num país em que o povo e a democracia vivem sob chantagem dos lobbies empresariais e gangues parlamentares.
Por Henrique Acker (jornalista e colunista), com imagem da Folha-UOL.



