Era apenas uma professora. E isso é tudo

Rodrigo Vargas  –    Na semana passada um nobre Senador da República, do alto da tribuna, bradou que uma deputada estadual catarinense: “antes de ser deputada não era nada, era professora”.

Este fato me deixou pensativo por alguns dias. Ao analisar todo o discurso do parlamentar, e saber do que se tratava o contexto todo, mais uma vez nota-se que algumas pessoas não estão prontas para o cargo que ocupam, não por falta de conhecimento (olha a curiosidade) repassada por professores. A frase, lançada com a leveza de quem não mede o peso das palavras, ecoou como um insulto, mas revelou algo muito mais profundo: a miopia de quem confunde poder com valor.

Há uma arrogância antiga que ronda certos espaços públicos, onde há a ideia de que só passa a “ser alguém” quem conquista um cargo, quem aparece na televisão ou quem tem o crachá do Estado pendurado no peito. É como se o reconhecimento humano precisasse de uma cerimônia, um título, uma faixa, uma caneta dourada.

Mas antes de qualquer senador ou deputado, havia, e sempre haverá uma professora.

Antes de cada discurso no plenário, houve alguém que ensinou o orador a juntar as letras, a compreender o texto, a formular o pensamento.

Antes de cada voto, houve uma educadora que, talvez em uma escola simples do interior, ensinou que respeitar o outro é o primeiro ato de cidadania.

Quando um parlamentar reduz uma professora a “nada”, não ofende apenas uma pessoa. Ofende a base que sustenta qualquer nação. Porque professores não passam pela vida pública: eles constroem o público, no sentido mais nobre do termo. Formam gente, preparam cidadãos, acendem luzes em lugares que o poder raramente visita.

Ser professora, afinal, é o contrário de não ser nada. É ser o ponto de partida.

É ser o alicerce sobre o qual o próprio senador aprendeu a falar, ler e pensar, ainda que, naquele momento, tenha esquecido a lição mais simples: o respeito.

E talvez o mais triste nisso tudo não seja o preconceito explícito, mas a naturalidade com que ele foi dito. Como se o mundo estivesse de cabeça para baixo e o cargo valesse mais que o caráter, o título mais que o trabalho, a cadeira mais que a consciência.

Mas a boa notícia é que a frase revelou mais sobre quem a disse do que sobre quem a recebeu. Porque quem um dia foi “apenas professora” sabe que o tempo corrige o que o ego distorce. E que o verdadeiro poder não se mede pela tribuna, mas sim pelo impacto que deixamos nas pessoas.

“Era professora”, disse o senador. Pois é, e isso deveria ser o suficiente para merecer respeito. E me faz lembrar de uma frase bíblica muito marcante: “Perdoe, Pai, eles não sabem o que fazem”.

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