Henrique Acker – A situação na vila estava tensa. Fundada há séculos, a vila reúne famílias de parentes, uns mais próximos, outros mais distantes.
Apesar do clima pesado, as casas da direita e da esquerda da rua seguiam suas rotinas, com dificuldades aqui e acolá. Até que um ladrão de outra região alertou que estava de olho nas posses das famílias.
O fato é que ninguém levou fé no sujeito. Tipo espaçoso, encrenqueiro, mal-educado. Na ficha dele, acusação de vários golpes, inclusive pedofilia.
O sujeito esperou a madrugada. Logo depois do ano novo, quando todos ainda lembravam dos festejos e a maioria dormia, ele entrou na casa de uma das famílias. Fez estragos e ainda sequestrou o patriarca da família.
O que era só ameaça virou realidade. Agora, corre o risco de o ladrão sequestrador pedir uma grana alta pelo resgate. Ao que parece, contou com a ajuda de uma prima distante, desgarrada, que vive falando mal de todo mundo da própria família e quer porque quer assumir o comando da casa.
Pela manhã, quando as outras famílias da rua e as mais distantes da vila acordaram, o estrago já estava feito. Fechadura arrombada, deram falta do patriarca. Um bilhete deixado pelo ladrão confirmava o delito: “Volto para levar o que é meu, e quando eu voltar vai ser pior.”
Tudo bem que o patriarca daquela casa nunca foi uma unanimidade. Alguns amam, outros odeiam. Mas ele é da família. Quando se reúnem, pais, avós, filhos, netos quebram o pau e sai até xingamento. Às vezes parece que ninguém se entende.
Cada um defende suas ideias, revela suas preferências e aponta um caminho para os problemas. Mas no final da gritaria, a vida continua. O que se discute ali morre ali. E ai do vizinho que meter sua colher na cumbuca e se intrometer onde não é chamado…
O problema é que dessa vez a vizinhança entrou em pânico. Afinal, o que o ladrão sequestrador quis dizer com “o que é meu” e “vai ser pior”? Está claro que o sujeito vai invadir outras casas. A pergunta é: quando e qual será a próxima casa?
E se algumas famílias decidirem colaborar com o ladrão? É sabido que alguns moradores têm ódio mortal do sequestrado e estariam até desejando o pior para ele. Mas quem sabe o que será no dia de amanhã? Pau que dá em Chico também dá em Francisco.
A reação natural é cada um acreditar que não tem nada a perder. É verdade que uns têm mais valores acumulados que outros, mas ladrão que é ladrão enxerga sempre a melhor ocasião. Portanto, quem não se precaver vai dançar.
Algumas famílias decidiram procurar o chefe de polícia. Só ele poderia resolver o caso. O delegado logo avisou: “Não tenho como prender esse sujeito. Não há acordo que ele seja um criminoso e não há uma acusação formal contra ele. E mesmo que houvesse, eu não tenho efetivo para correr atrás dele.”
O jeito foi encontrar uma solução entre todos os vizinhos. Alguns propuseram fechar as ruas da vila com cancelas e seguranças. Outros pediram grades e portões de ferro em cada casa.
Depois de muita discussão, encontraram uma forma de enfrentar as ameaças do ladrão: cada família vai escalar um de seus membros para ficar de vigilância a cada noite.
Os vigias vão ficar de butuca e, ao menor sinal estranho, o vigia sopra um apito e acende a luz. Será o sinal para os outros vigias também apitarem, acenderem as luzes de todas as casas, e todos os moradores correrem para a casa que deu o alerta.
Moral da história: em vez de afundar a cabeça na areia como uma avestruz, a única forma de enfrentar o poderoso ladrão é todo mundo fazer barulho junto e assustar o sujeito. (Foto: Reprodução)
Por Henrique Acker (jornalista e colunista)



