Desafios: PT entre a cruz e a espada; Bolsonarismo sem liderança

Henrique Acker –     Menos de 48 horas depois de proclamado o resultado da eleição presidencial de 2026 pelo TSE, dois fatos chamam a atenção. De um lado, a fuga de Flávio Bolsonaro, com o apoio logístico do governo dos EUA; de outro, a entrevista de Dario Durigan, atual ministro da Fazenda de Lula, anunciando novas medidas para o cumprimento de metas do arcabouço fiscal.

Entre assumir a liderança da oposição de extrema-direita e passar pelo risco de ser preso, Flávio preferiu aceitar o “convite” de Marco Rubio e deixar o Brasil. Por sua vez, Durigan representa um setor moderado do PT, em busca de acordos com o mercado financeiro, que podem custar os compromissos assumidos com a base que elegeu Lula.

 

Operação casada

A saída às pressas de Flávio Bolsonaro do Brasil atende a interesses de Marco Rubio, grande prejudicado com a reeleição de Lula. Ele disputa com JD Vance a preferência dos Republicanos para a sucessão de Donald Trump e pretendia fechar o cerco em toda a América Latina até o final de 2026, com governos totalmente alinhados a Washington.

Vance, vice-presidente e membro da ala ideológica da extrema-direita (MAGA), atua a partir de uma estratégica voltada para o cerco e enfrentamento com a China. Para isso, move-se no cenário internacional para consolidar a liderança dos EUA junto à Europa e Ásia.

Rubio sabe que o resultado das eleições de 3 de novembro nos EUA deve mudar o controle da Câmara e pode alterar inclusive o comando do Senado em favor dos Democratas. Isso dificulta a política do Departamento de Estado, que ele comanda no governo Trump.

A ida de Flávio Bolsonaro para os EUA, logo depois de ter assegurado que permaneceria no país para comandar a oposição e, inclusive, questionar o processo eleitoral, demonstra também a fragilidade de sua liderança.

A candidatura de Flávio foi uma imposição de Jair Bolsonaro. Uma forma de manter o comando da oposição sob suas rédeas. Ao mesmo tempo, passou a ser uma tentativa de obter um salvo conduto para que o senador não fosse preso, diante dos inúmeros escândalos de grande repercussão em que está envolvido.

Sem Flávio, que obteve 59 milhões de votos, a oposição bolsonarista fica órfã para dirigir sua atuação no Congresso Nacional. Carlos e Jair Renan não têm formação nem experiência política para dar conta da tarefa. Michelle não é confiável à família Bolsonaro e tem objetivos próprios.

Os reflexos da reeleição de Lula e da fuga de Flávio já se fizeram sentir na sucessão para a direção da Câmara de Deputados e do Senado. Quinze partidos, incluindo o Republicanos, PP e União Brasil, já anunciaram apoio à reeleição de Hugo Motta e Davi Alcolumbre para as presidências da Câmara e do Senado. Os dois vão contar com os votos do PT e seu bloco parlamentar.

Apesar de ter eleito as maiores bancadas nas duas casas, o PL ficou isolado em função da derrota de Flávio e sua saída do país. Oportunidade para Valdemar da Costa Neto retomar o comando e dar ao partido a velha cara do Centrão, com mais negociações de bastidores e menos confronto com o Executivo e o STF.

 

Lula entre medidas populares e agradar ao “mercado”

A virada espetacular de Lula dá ao PT fôlego para emplacar Rodrigo Pacheco (PSB-MG) no STF, antes da nova legislatura. Ao mesmo tempo, o partido terá que construir uma equipe capaz de negociar com o Centrão, para que o próximo governo tenha condições de aprovar seus projetos nos próximos quatro anos.

Já no dia seguinte ao resultado da eleição, o governo lançou mão de dez milhões do Tesouro Nacional para acalmar o mercado financeiro, numa operação de recompra de títulos da dívida pública. O atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou que o governo Lula 4 pretende perseguir o chamado “centro da meta fiscal”.

“Nosso compromisso é com a responsabilidade fiscal”, disse Durigan em declaração aos jornalistas na tarde de 27 de outubro. Isso significa que haverá cortes de investimentos públicos, os quais o ministro promete que serão discutidos com agentes do setor financeiro.

O problema é que o excesso de preocupação com os interesses do “mercado” deve esbarrar com os compromissos anunciados publicamente por Lula em seu discurso de vitória. Nenhum dos líderes dos grandes grupos financeiros doou um centavo para a campanha de Lula. Tampouco houve doações de lideranças do agronegócio, que apostaram em Flávio.

Há aí mais um choque entre os burocratas do PT, ansiosos por um governo em paz com o “mercado” – que cobra o “controle de gastos” – e as expectativas do eleitorado, que tomou a campanha nas mãos, inundou as ruas e as redes sociais e foi responsável pela vitória de Lula.

O presidente sabe que não pode decepcionar a grande massa que sustentou a virada no segundo turno. Até porque, em minoria no Congresso Nacional, precisará da força das ruas para não ficar mais uma vez refém do Centrão.

Essa equação torna-se cada vez mais difícil para Lula e o PT, a medida em que não se pode agradar a gregos e troianos. Será preciso avançar dos limitados programas de compensação social para iniciar transformações efetivas, que assegurem a melhoria das condições de vida à maioria da população. (Foto: Reprodução Internet)

Por Henrique Acker (jornalista e colunista) 

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